Segurança no trabalho é um tema essencial para qualquer empresa – e que precisa ser debatido atualmente com toda a atenção, já que o número de acidentes de trabalho, em diversos segmentos, vem crescendo no Brasil nos últimos anos.
Por isso mesmo, nosso setor precisa voltar o olhar para a segurança dentro de suas fábricas. Nas páginas a seguir, confira dados nacionais envolvendo esse tipo de ocorrência e a opinião de profissionais vidreiros a respeito da importância de manter o tema continuamente em pauta
Números indesejados em alta
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que têm como base informações extraídas do e-Social e do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), revelam um cenário preocupante no que diz respeito à segurança do trabalho nas empresas brasileiras: desde 2021, o número de acidentes cresce consistentemente. Houve alta de 12,63%, de 2021 para 2022; de 11,91%, de 2022 para 2023; e de 11,16%, de 2023 para 2024. No ano passado, só no primeiro semestre, o aumento foi de 8,98% em relação ao mesmo período de 2024.
Para o MTE, esses números evidenciam a urgência de ampliar políticas públicas e ações preventivas voltadas à saúde e segurança nos ambientes laborais, além de intensificar ações preventivas – especialmente nos setores com maior incidência de ocorrências, como construção civil, transporte, saúde e agropecuária. “No Brasil, a dificuldade de mensurar a quantidade real de acidentes do trabalho decorre, dentre outros fatores, da subnotificação, falta de padronização de procedimentos nas extrações dos dados e ausência de sistema de registro unificado”, comenta Viviane de Jesus Forte, coordenadora-geral de Fiscalização em Segurança e Saúde no Trabalho do MTE.
Menos mão de obra qualificada = mais acidentes
Os jovens de até 34 anos concentram cerca de um terço das mortes por acidentes de trabalho típicos no Brasil – e os dados indicam ainda que as partes do corpo mais atingidas refletem ausência ou uso inadequado de equipamentos de proteção individual (EPIs).
Esse recorte parece se ligar a outro assunto urgente para diversas cadeias produtivas nacionais: o apagão da mão de obra qualificada enfrentado por vários setores, incluindo o vidreiro – como abordado por O Vidroplano em reportagem da edição de janeiro. “Entendemos que a qualificação é bastante eficaz para atribuir uma percepção de segurança ao funcionário, tanto em relação à segurança de si mesmo como na de seus colegas de trabalho”, analisa Luiz Grechi Neto, técnico em Segurança do Trabalho da Tempermax.
Como bem alerta o diretor da Temperbras, Samuel Yamashita, o uso de mão de obra não qualificada aumenta drasticamente a probabilidade de acidentes. “No Brasil, trabalhadores sem a devida formação são historicamente os mais atingidos pelos acidentes. Por isso, ressalto a importância de todos trabalharmos juntos, treinando e conscientizando os nossos colaboradores, assim como os nossos clientes, sobre o perigo de não se adotar boas práticas.”
As especificidades do setor vidreiro
Todas as empresas consultadas para a reportagem afirmam contar com um plano estruturado de segurança do trabalho, baseado nas Normas Regulamentadoras (NRs). Esse plano pode ser constituído por diversas tarefas, incluindo:
- Mapeamento de riscos por etapa produtiva;
- Acompanhamento dos indicadores internos de segurança;
- Investimentos em infraestrutura e tecnologia;
- Treinamentos periódicos;
- Criação do Diálogo Diário de Segurança (DDS);
- Criação da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa).
O DDS, que ocupa papel relevante na manutenção das boas práticas, consisteem reuniões diárias (que também podem ser semanais) com a equipe para discutir temas relacionados à segurança do trabalho.
Entre os assuntos abordados estão: - Melhorias nos procedimentos de trabalho;
- Maior aproveitamento dos equipamentos, especialmente quando novos maquinários são introduzidos na produção;
- Utilização de novos EPIs;
- Análise de acidentes ocorridos na empresa ou em outras instituições.
Os cuidados em cada processo
De acordo com as processadoras consultadas para esta reportagem, cada etapa do beneficiamento tem desafios próprios. Para todas elas, a combinação de treinamento, padronização de processos, supervisão ativa e tecnologia é o que garante um ambiente seguro.

- Manuseio de chapas
Chapas de grandes dimensões exigem técnica, força controlada e equipamentos para movimentação. O risco envolve esmagamento, queda de material e cortes.
Focos de atenção: ergonomia e automação. - Corte
Envolve contato direto com chapas e ferramentas cortantes. Aqui, deve-se evitar acidentes envolvendo projeção de partículas e falhas na manipulação das peças recém-cortadas.
Focos de atenção: treinamento técnico, EPIs adequados e cumprimento dos procedimentos. - Lapidação e acabamento
Há risco de contato com bordas ainda cortantes, além de exposição a ruídos e partículas.
Focos de atenção: controle de máquinas, manutenção preventiva e uso de proteção auditiva e ocular. - Têmpera
Trata-se de um processo térmico com temperaturas elevadas.
Focos de atenção: controle operacional, monitoramento dos equipamentos, prevenção contra queimaduras e enclausuramento de forno para reduzir o calor e ruído (além de falhas estruturais do vidro). - Estoque e logística interna
Organização é a palavra-chave. Empilhamento inadequado, circulação desordenada e movimentação sem planejamento aumentam os riscos.
Focos de atenção: sinalização, layout seguro e fluxo bem-definido.
Automação: amiga da segurança
A tecnologia dos maquinários vidreiros atua ativamente para gerar mais segurança nas fábricas. “Equipamentos modernos reduzem o contato direto com o vidro, minimizam esforço físico excessivo, aumentam a precisão e diminuem falhas humanas. Além disso, sistemas automatizados de corte, movimentação e controle de processo contribuem para reduzir riscos e padronizar operações”, explica Nathalia Porto, da Viminas.
Mas, ainda que auxilie os profissionais do setor, a automação não elimina os acidentes por completo – afinal, sempre vai ter um humano por trás das máquinas, e essa pessoa precisa ser treinada regularmente. “Atualmente, existem muitas opções de maquinários automatizados no mercado, tanto para grandes como para pequenas produções. Na Real Box estamos pensando em automatizar mais os processos, e assim ter uma fábrica ainda mais segura e cadenciada”, destaca André Catini.
E como reforça Luiz Grechi Neto, da Tempermax, “antes da implementação de novos equipamentos, é preciso que todos os seus sistemas de segurança estejam de acordo com as NRs em vigência”.
Levar a segurança aos demais elos
Segundo Samuel Yamashita, embora a segurança do trabalho seja um tema consolidado e priorizado na gestão do segundo elo da cadeia vidreira (o elo do qual as processadoras fazem parte), é fundamental mantê-lo permanentemente em pauta. “Ao observarmos o terceiro elo, dos vidraceiros, o cenário ainda é crítico, com um volume considerável de incidentes e acidentes de trabalho”, aponta Yamashita. “Cabe às entidades de classe e a todos os players do setor assumir a responsabilidade de treinar e conscientizar a ponta da cadeia.
Precisamos transformar a segurança, de um conceito abstrato, em prioridade prática e inegociável para todos os envolvidos.”
André Catini, da Real Box, tem opinião semelhante: “Muitas processadoras vêm se organizando e buscando mais segurança em seus processos, mas vejo que o mesmo não acontece nas distribuidoras e vidraçarias. Muitas trabalham sem conhecimento técnico, gerando mais riscos aos envolvidos”.
E não tem segredo: a solução para isso é disseminar boas práticas. A Adivipar-PR fez, em outubro do ano passado, uma campanha na qual distribuiu para seus associados a cartilha Cuidado! Vidro em movimento. Preparada no formato de história em quadrinhos pela Abravidro, a publicação visa a demonstrar os procedimentos necessários para manusear e transportar vidros. “O principal objetivo dessa campanha foi conscientizar, tanto os processadores de vidros como os vidraceiros e serralheiros, sobre a importância em adotar práticas seguras noambiente de trabalho”, explica Yamashita, que também é o presidente da associação. “A prevenção de acidentes e a preservação da vida sempre é uma prioridade para a entidade. Prevenir acidentes é investir no futuro.”
Um exemplo trágico (e evitável) com trabalho envolvendo vidro foi visto em setembro de 2025, quando um instalador de películas morreu em São Paulo. Ele trabalhava na cobertura envidraçada do edifício do Centro Empresarial do Aço, em São Paulo, quando um dos vidros quebrou. A apuração da Auditoria Fiscal do Trabalho concluiu que o acidente não foi fatalidade nem erro do trabalhador, mas, sim, resultado de falhas organizacionais e de falta de gestão adequada de segurança. O órgão afirmou que não houve planejamento adequado das atividades, nem análise de risco para trabalho em altura, assim como não foram adotadas medidas de proteção que eliminassem o risco de queda – o cinto de segurança, por exemplo, era inadequado ao peso do trabalhador e o sistema de ancoragem utilizado era improvisado, sem projeto técnico ou certificação.
A segurança, portanto, deve ser pensada para todo o ecossistema do vidro: dos colaboradores das empresas aos vidraceiros, passando ainda por instaladores e pelos responsáveis pela manutenção e limpeza das estruturas com o material. “Empresas que negligenciam a segurança acabam enfrentando afastamentos, perdas produtivas e riscos jurídicos. Já aquelas que investem em prevenção colhem ganhos em eficiência, clima organizacional e credibilidade no mercado”, frisa Nathalia Porto, da Viminas.
Quais EPIs usar?
Em uma processadora, os principais EPIs que não podem faltar no dia a dia de trabalho são:
● Capacete: para proteger a cabeça da queda de objetos ou do choque contra estruturas fixas;
● Protetor auditivo: para evitar danos auditivos causados pela exposição prolongada a altos níveis de ruído;
● Óculos: para proteger olhos e face da projeção de partículas e lascas;
● Mangote de kevlar: para proteção dos membros superiores;
● Luva: para proteção das mãos — deve ser tramada com fios de algodão e aço inox ou ser de aramida (kevlar) com revestimento ou pigmentada com borracha nitrílica ou PVC;
● Avental: em trabalhos em que há risco de cortes, deve ser de aramida (kevlar) ou raspa de couro. Já em ambientes úmidos, sem risco de corte, deve ser de PVC ou de material similar com característica impermeável;
● Calçado (bota): para proteção dos membros inferiores, deve ter biqueira de proteção.
Foto de abertura: Sergey/stock.adobe.com








