Vidroplano
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Saiba como transformar sua vidraçaria em serralheria

02/05/2024 - 18h56

Os ramos do vidro e da serralheria são bastante próximos um do outro – afinal, o uso do nosso material em esquadrias se faz presente nos mais diversos tipos de instalação. Tendo isso em vista, muitas vidraçarias ampliam sua atuação e passam a trabalhar em ambas as áreas.

E você, já pensou em tornar sua empresa uma serralheria? Essa nova função abre novas oportunidades de negócios – mas implementá-la não acontece de uma hora para a outra: é preciso fazer um bom planejamento e estar preparado para todos os investimentos necessários, seja na aquisição de novas máquinas, seja na capacitação da equipe. Nas próximas páginas, O Vidroplano traz orientações para essa transição e apresenta depoimentos de vidraceiros que já passaram por ela.

O que faz uma serralheria?
“Na indústria de esquadrias, os processos executados tanto no chão de fábrica como na obra seguem uma sequência específica”, aponta o professor Alexandre Araujo, CEO do Canal do Serralheiro e coordenador da pós-graduação em engenharia de esquadrias de alumínio e fachadas envidraçadas. As etapas são as seguintes:

  1. Inicialmente, faz-se o corte dos perfis de alumínio, seguido pela usinagem deles;
  2. Em seguida, há a pré-montagem dos componentes, incluindo roldanas, fechos, escovas e gaxetas, entre outros;
  3. Os quadros e folhas são então montados, e os quadros das esquadrias são envidraçados;
  4. Finalmente, as esquadrias são embaladas e instaladas.

 

Foto: Divulgação Folle Comércio de Vidro

Foto: Divulgação Folle Comércio de Vidro

 

Por que entrar nesse segmento?
As próprias vidraçarias que tomaram essa decisão respondem – começando pela AS Vidraçaria, de Caruaru (PE). “Com as demandas do mercado, à medida que os clientes buscam soluções mais completas e integradas para seus projetos de construção e reforma, percebemos a oportunidade de oferecer serviços de serralheria para atender a essa demanda crescente”, conta Alexsandro Siqueira, proprietário da empresa. “Isso fez com que a vidraçaria oferecesse uma gama mais ampla de serviços e permitisse diversificar sua oferta, alcançando novos segmentos de mercado”.

Um dos principais atrativos para a mudança, claro, é o aumento da receita – esse foi o caso da Vidrarte, localizada em Itabira (MG). “Em busca de soluções para nossos clientes, sempre que podemos, participamos efetivamente de feiras voltadas para o ramo vidreiro; nessas visitas, começamos a entender que, além de funcional, produzir esquadrias traria uma margem de lucro absurdamente maior do que apenas fornecer os vidros temperados convencionais”, conta Luiz Henrique Brito Cruz Oliveira, analista-administrativo do empreendimento. “Essa percepção fez com que a Vidrarte passasse a buscar conhecimento e fornecedores parceiros para viabilizar o projeto.”

Trabalhar com atividades de serralheria também pode facilitar a própria operação da vidraçaria. “Além de a diversificação dos produtos nos garantir mais estabilidade financeira diante da oscilação do mercado, outro fator relevante é que, frequentemente, há demanda tanto de vidros como de esquadrias de alumínio dentro de uma mesma obra”, ressalta Gabriel Rocha, proprietário da RM Esquadrias, de Cachoeirinha (RS). Leonardo Folle, presidente da Folle Comércio de Vidro, de Marau (RS), concorda: “A ideia de ampliação surgiu a pedido de nossos clientes, de modo que pudéssemos entregar a eles um serviço ainda mais amplo e completo”.

 

Foto: Divulgação Canal do Serralheiro

Foto: Divulgação Canal do Serralheiro

 

Preparando-se para a ampliação
Antes de decidir que sua empresa também vai se tornar uma serralheria, é importante avaliar diversos fatores, como a demanda do mercado, a capacidade de investimento em novos equipamentos e treinamento e a viabilidade de integrar esses novos processos ao fluxo de trabalho existente.

“O valor médio para uma vidraçaria expandir suas operações para incluir os trabalhos com estruturas de alumínio pode variar significativamente, dependendo dos objetivos específicos do empresário – é crucial lembrar que, ao fazer a transição, a empresa passa de um simples prestador de serviços para uma indústria com metas de produtividade que estão relacionadas à capacidade de vendas e ao controle efetivo dos custos e despesas”, orienta Alexandre Araujo.

De acordo com o instrutor e CEO do Canal do Serralheiro, considerando a meta de faturamento, o investimento inicial para essa expansão pode começar a partir de R$ 150 mil. Esse valor seria destinado à aquisição de recursos necessários, como máquinas, equipamentos e softwares, essenciais para realizar as atividades de serralheria de alumínio.

A aquisição desses maquinários, por sua vez, traz outro desafio: a adequação do espaço de trabalho para acomodá-los sem comprometer as atividades habituais da vidraçaria e a circulação dos colaboradores. Em alguns casos, apenas mudar a disposição desses aparelhos pode não ser suficiente, como foi o caso da Silvestre Vidros, de São Paulo. “Depois de comprar os equipamentos mais modernos e funcionais que encontramos no mercado, acabamos mudando de endereço para um lugar mais amplo”, relata Andrea Oliveira, sócia-proprietária da empresa.

Saber que haverá custos para a adequação da vidraçaria e compra de novos instrumentos de trabalho pode parecer desanimador a princípio, mas lembre-se: trata-se de um investimento, não de um gasto perdido. E essa etapa pode até ser útil para expandir seus contatos: Andrea conta que foi durante a procura por máquinas que ela conheceu o fornecedor que se mantém como seu parceiro no mercado até hoje.

 

Foto: JackF/stock.adobe.com

Foto: JackF/stock.adobe.com

 

O passo a passo da transição
Oliveira, da Vidrarte, conta que sua empresa seguiu as seguintes etapas para tornar-se uma serralheria:

  1. Qualificação dos líderes para entender todo caminho a ser percorrido;
  2. Busca por fornecedores no mercado que ofereçam qualidade e boa relação custo-benefício;
  3. Readequação do espaço físico para implementação das novas máquinas e equipamentos para fabricação das esquadrias;
  4. Seleção de profissionais da área com pré-requisitos para desenvolver atividades em serralheria;
  5. Capacitação desses funcionários, por meio de cursos presenciais e online;
  6. Apresentação das novas soluções desenvolvidas pela empresa para o mercado (arquitetos, paisagistas, engenheiros e parceiros em geral).

Alexandre Araujo recomenda que o vidraceiro interessado nesse processo busque uma consultoria especializada para entender o montante do investimento necessário para equipamentos, materiais, mão de obra e capital de giro. “Também é importante identificar os sistemas de esquadrias de alumínio que se alinham aos objetivos de vendas da empresa. Ter uma ideia clara do faturamento pretendido em um determinado período é de igual modo crucial para buscar um espaço que atenda a capacidade de produção necessária para alcançar esse faturamento”, acrescenta. “Portanto, um planejamento cuidadoso e uma compreensão clara dos objetivos de negócio são essenciais para essa transição e evitam decepções futuras.”

Por fim, vale ressaltar que é preciso ter paciência para conseguir recuperar todo o investimento, o que reforça a importância de um bom planejamento. A boa notícia é que, se sua vidraçaria estiver trabalhando com qualidade, pode ter certeza de que esse retorno vem. No caso da Folle Comércio de Vidro, por exemplo, Leonardo Folle aponta que a empresa levou, aproximadamente, oito meses até começar a lucrar com a demanda nesse segmento.

A Butico Vidros, de Marabá (PA), teve experiência semelhante. “Iniciei o processo de ampliação em 2020, comprando equipamentos e buscando conhecimentos. Na verdade, começamos a decolar na área de serralheria só agora, mas já conseguimos recuperar o que investimos”, conta o diretor Francisco Cristino Cardoso da Silva, avaliando que o fundamental nessa transição é ter responsabilidade e compromisso. ”Tenha isso e não faltará cliente”, afirma.

“Vidro e alumínio são produtos complementares. É necessário que haja uma mudança cultural e muita resiliência para que uma vidraçaria se torne uma boa produtora de esquadrias, mas é extremamente gratificante atuar nesse mercado incrível e cheio de boas oportunidades”, destaca Gabriel Rocha, da RM Esquadrias.

 

Foto: Divulgação Canal do Serralheiro

Foto: Divulgação Canal do Serralheiro

 

Formando seus serralheiros
Essa é uma etapa crucial para o sucesso da sua empreitada. Afinal, não adianta ter toda a estrutura necessária para trabalhar com perfis e esquadrias se seus funcionários não souberem usá-la.

Opções de capacitação de qualidade não faltam. Cursos podem ser encontrados em instituições como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), bem como junto a sistemistas de esquadrias que oferecem periodicamente cursos de aperfeiçoamento profissional. O Canal do Serralheiro também oferece treinamentos. Há um curso de formação para projetistas de esquadrias de alumínio e fachadas envidraçadas e, além dele, os profissionais envolvidos em orçamento, projetos e vendas que tiverem Ensino Superior podem se inscrever na na pós-graduação em engenharia de esquadrias de alumínio e fachadas envidraçadas. Para auxiliar na nova gestão, os empresários podem participar ainda de mentorias e consultorias oferecidas pelo Canal do Serralheiro.

Antes de começar a atuar com serralheria, a equipe da Silvestre Vidros passou por treinamentos e aperfeiçoamentos ministrados tanto pelo Senai como por instrutor presencial. Por sua vez, Júnior Furlanetto, sócio-diretor da Alto Padrão Vidros, de Belém, iniciou os trabalhos para levar sua vidraçaria para esse segmento há menos de dois meses, mas já está atento à importância de não apenas qualificar seus funcionários, mas também manter esse conhecimento em dia. “Hoje, o cenário nacional tem uma alta demanda de migração da vidraçaria para a serralheria por conta das obras de alto padrão; por isso, temos de nos atualizar todos os dias para acompanhar o mercado.”

Normas técnicas essenciais para serralheria
Assim como no trabalho tradicional dos vidraceiros, é fundamental que os empresários e colaboradores estejam familiarizados e em conformidade com as normas técnicas de serralheria. O professor Alexandre Araujo destaca algumas delas:

  • ABNT 10821 — Esquadrias externas para edificações;
  • ABNT NBR 7199 — Vidros na construção civil – Projeto, execução e aplicações;
  • ABNT NBR 14718 — Guarda-corpos para edificações;
  • ABNT NBR 15575 — Edificações habitacionais – Desempenho.

“Essas normas estabelecem os padrões de qualidade e segurança que devem ser seguidos na indústria”, ressalta o CEO do Canal do Serralheiro.

Este texto foi originalmente publicado na edição 616 (abril de 2023) da revista O Vidroplano. Leia a versão digital da revista.

Foto de abertura: romaset/stock.adobe.com



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