As fachadas envidraçadas sempre ditaram o ritmo da arquitetura nas grandes cidades, mas agora elas ganham critérios técnicos padronizados. Com a publicação da ABNT NBR ISO 12631 — Desempenho térmico de fachadas-cortina – Cálculo da transmitância térmica, o mercado nacional passa a contar, de forma inédita, com uma métrica padronizada para calcular como esses sistemas impactam a temperatura das edificações.
Do que se trata
A ABNT NBR ISO 12631 estabelece o método para calcular a transmitância térmica de fachadas-cortina a partir das propriedades de seus componentes. Segundo Fernando Westphal, engenheiro civil, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e relator do grupo de trabalho responsável pela elaboração da norma, a metodologia se baseia em conceitos já utilizados no mercado nacional para projeto de sistemas de ar-condicionado, visto que a fachada interfere diretamente na carga térmica da edificação.
Na prática, a determinação da transmitância térmica da fachada-cortina considera o desempenho individual de cada um de seus elementos, como vidros, perfis metálicos e eventuais painéis opacos. O cálculo é realizado a partir de seções típicas da fachada – e o resultado global é obtido por meio de uma média ponderada pela área de cada componente. “O projetista deve solicitar aos fabricantes as informações de transmitância térmica (valor U) dos materiais utilizados e, com esses dados, aplicar uma equação relativamente simples para chegar ao desempenho térmico final do conjunto”, explica Westphal.
Ferramenta eficiente
Mais do que um documento técnico, a norma inaugura uma nova forma de tomar decisões em projetos na construção civil. Westphal esclarece, no entanto, que a ABNT NBR ISO 12631 não estabelece, neste primeiro momento, requisitos mínimos de desempenho. “Ela traz o procedimento de cálculo, a primeira etapa para uma futura discussão sobre limites de transmitância térmica para fachadas no Brasil”, afirma. Segundo ele, esse debate já está em andamento na Comissão de Estudo de Eficiência Energética e Desempenho Térmico nas Edificações (CE-002:135.007), da qual o Grupo de Trabalho de Esquadrias e Vidros também faz parte.
“O projetista pode comparar diferentes soluções de fachadas e identificar aquelas que resultam em menor ganho de calor, ou seja, que tenham baixa transmitância térmica. Isso deve proporcionar maior economia para climatização, tanto em climas quentes, com uso de ar-condicionado, como em climas frios, com calefação”, explica o professor.
Em climas quentes, fachadas mais isolantes tendem a ser mais eficientes.
Ainda assim, o desempenho ideal depende de variáveis como orientação solar, carga térmica interna e condições climáticas locais. Em edifícios com grande área envidraçada e alta ocupação, por exemplo, pode ser necessário recorrer a simulações térmicas detalhadas para evitar que o excesso de isolamento “aprisione” o calor no interior e aumente o consumo de energia.
Protagonismo do vidro
A publicação da norma também representa um avanço importante para a padronização das informações técnicas fornecidas ao mercado. Com um método único de cálculo, torna-se possível avaliar de forma mais consistente o impacto térmico das fachadas e integrar esses dados a estudos de desempenho energético das edificações. “Esse parâmetro é importante para o cálculo de carga térmica no projeto de sistemas de climatização e essencial para análises energéticas por simulação computacional, como as adotadas nas certificações Leed e Aqua e na etiquetagem Procel”, pontua Westphal.
Clélia Bassetto, analista de Normalização da Abravidro, reforça que, embora a norma considere todos os elementos da fachada, o vidro tem papel central nesse desempenho. “Em termos percentuais, o vidro geralmente representa a maior área, por isso é uma parte muito importante no comportamento térmico do sistema.” Segundo a especialista, o processo de adaptação da norma ao Brasil contou com a participação conjunta de entidades do setor, incluindo o Comitê Brasileiro de Vidros Planos (ABNT/CB-37), sediado na Abravidro, que colaborou na tradução e na adequação dos termos técnicos estrangeiros para a realidade nacional antes da publicação do documento.
Ainda que, por enquanto, não estabeleça requisitos mínimos, a ABNT NBR ISO 12631 cria as bases para que, no futuro, fachadas-cortina sejam especificadas com base em desempenho térmico mensurável – um movimento que tende a elevar o nível técnico dos projetos e a qualidade das soluções entregues ao mercado.
Este texto foi publicado originalmente na edição nº 639, de março de 2026, na revista O Vidroplano.
Foto de abertura: Freepik








