Em janeiro, O Vidroplano abordou a escassez de mão de obra, problema que continua pressionando a indústria brasileira – e que também desafia o setor vidreiro. Entre os pontos levantados naquela matéria, um tema ganhou destaque e agora exige atenção redobrada das empresas
brasileiras: a saúde mental no ambiente de trabalho. Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), revisada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) no ano passado, a gestão dos riscos psicossociais deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar para se tornar uma exigência formal e estratégica dentro das organizações.
A mudança impõe novas responsabilidades às companhias e deve impactar diretamente o setor vidreiro – este, por sua vez, precisará se estruturar para atender as diretrizes e fortalecer a proteção de seus colaboradores.
O fim da gestão apenas no papel
É nesse novo contexto regulatório que as empresas precisam rever processos e rotinas internas. De acordo com a advogada Karina Gonzaga, sócia da Gonzaga & Cecchi Advogados, a gestão de saúde e segurança do trabalho deixa de cumprir um papel meramente formal e passa a exigir atuação prática e integrada à estratégia do negócio.
A atualização da NR-1 consolida o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e torna obrigatório o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), o qual precisa identificar, avaliar e controlar todos os riscos presentes no ambiente de trabalho. Na prática, isso amplia o escopo de atenção das companhias. Além dos riscos físicos, químicos e biológicos, passam a integrar o radar os fatores organizacionais capazes
de afetar a saúde mental dos trabalhadores, como sobrecarga de trabalho, metas excessivas e assédio.
Karina alerta que a empresa deve mapear riscos psicossociais ligados à organização do trabalho, metas, jornadas e clima interno, prevenindo situações que possam levar ao adoecimento mental. Também é fundamental adotar medidas eficazes e manter a documentação adequada dessas ações. Para isso, é importante uma atuação conjunta entre as áreas jurídica, de recursos humanos e de segurança do trabalho. “O direito do trabalho moderno não começa na defesa, começa na prevenção. Aquelas empresas que estruturarem corretamente o gerenciamento de riscos tendem a reduzir afastamentos, conflitos e custos trabalhistas”, explica a advogada.
A origem do esgotamento
Para Renata Rivetti, especialista em relações humanas e saúde mental, o esgotamento atual ocorre porque o formato do trabalho mudou muito rápido, mas a maneira de organizar e liderar não acompanhou essa evolução. “A pressão nasce da sobrecarga, das urgências constantes, de metas que ultrapassam a capacidade real, do excesso de multitarefas e da falta de clareza nas prioridades. A isso se soma um ambiente relacional fragilizado, marcado por microgestão, medo de errar, comunicação agressiva e baixa autonomia”, esclarece. “Esse cenário vira
risco psicossocial, por conta de questões como estresse prolongado, exaustão, ansiedade, conflitos e insegurança psicológica. Desse jeito, o trabalho vira fator adoecedor.”
Para atender a NR-1, a especialista recomenda que as empresas comecem com um diagnóstico de riscos psicossociais e criem um plano estruturado para redesenhar o trabalho, o tempo e as relações da equipe. Além de rever a carga de metas e tarefas, é essencial capacitar as lideranças para promover uma cultura de respeito e segurança psicológica no dia a dia corporativo.
Prevenção na prática
Matheus Lima e Silva, psicólogo que atua na implementação da NR-1 na processadora Mary Art, afirma que o aspecto psicológico na empresa é o software que faz funcionar máquinas e equipamentos de proteção individuais. Em processos como a têmpera, que exigem foco contínuo, reduzir riscos psicossociais é essencial para evitar que o trabalhador recorra a “atalhos” perigosos ou cometa erros de manuseio. “Ao mapear os riscos de cada Grupo Homogêneo de Exposição (GHE), da produção às vendas, a empresa adota medidas como metas mais realistas e treinamentos eficazes. Como resultado, percebe-se maior aderência aos protocolos de segurança”, explica o profissional.
A Mary Art tornou-se case no setor por já aplicar essas diretrizes na rotina de trabalho. A empresa realiza atividades como:
- Retiros de meditação;
- Aulas semanais de ginástica funcional na própria fábrica;
- Grupo de meditação com sala exclusiva;
- Além disso, subsidia 30% da mensalidade de academias para a equipe.
Integrar essas ações preventivas ao PGR e focar no fator humano, segundo o psicólogo, elimina custos invisíveis, como o presenteísmo
e o absenteísmo, garantindo a sustentabilidade financeira do negócio.
Principais mudanças da NR-1
- Riscos psicossociais no PGR: o gerenciamento de riscos agora é obrigado a incluir fatores organizacionais e mentais (como assédio,
metas abusivas e prevenção ao burnout), não se limitando aos riscos físicos e biológicos; - Ações de prevenção: as indústrias devem implementar medidas preventivas reais para proteger a saúde mental, englobando o treinamento
e a preparação de gestores e de suas equipes; - Conformidade e monitoramento: não basta reconhecer o risco – os fatores psicossociais devem ser efetivamente identificados e avaliados
por meio de planos de ação constantes dentro do PGR; - Terceirização: a norma ampliou a responsabilidade da empresa contratante, a qual passa a ter de sincronizar as ações de prevenção
e incluir as medidas no PGR para os serviços terceirizados executados em suas dependências.
Este texto foi publicado originalmente na edição nº 638, de fevereiro de 2026, na revista O Vidroplano.
Foto de abertura: Freepik






