O que esperar da economia do País para os próximos anos? O economista e consultor Alexandre Schwartsman tentou responder a essa pergunta complexa em sua palestra E agora, Brasil? O cenário econômico depois das eleições, apresentação que encerrou o conteúdo técnico do 17º Simpovidro. Schwartsman, que também é colunista da revista Veja e do jornal O Estado de S. Paulo, além de comentarista semanal para a Rádio CBN, teve a missão de mostrar a importância de acompanhar indicadores como inflação, juros e câmbio para orientar as decisões das empresas vidreiras.
O economista abriu a palestra com uma análise dos desafios econômicos globais e domésticos. Com humor e uma abordagem direta, apontou os fatores que pressionam a economia brasileira e alertou para os limites do modelo de crescimento baseado no estímulo ao consumo. “Se eu soubesse que a trilha sonora de entrada seria de Missão Impossível, eu juro que desceria fazendo rapel do teto. Mas de alguma forma é um tema muito apropriado, porque a gente vai falar de cenário econômico para o Brasil. E de fato é uma missão difícil, para não dizer uma missão impossível”, brincou.
Pressão internacional
Ao analisar o cenário externo, Schwartsman destacou a elevação dos juros nos Estados Unidos como um dos principais fatores de pressão sobre a economia mundial. Segundo ele, a necessidade de financiar os investimentos em infraestrutura para inteligência artificial (IA), especialmente a construção de data centers pelas grandes empresas de tecnologia, aumentou a demanda por capital e contribuiu para manter as taxas de juros em patamares elevados. “Na verdade, estou mostrando aqui só Estados Unidos, mas é o que basta, porque é o proverbial elefante na loja de louças. Toda vez que ele mexe, as demais louças acabam quebrando de alguma forma”, comparou.
O economista ressaltou que o volume de investimentos em IA já supera 3,5% do PIB norte-americano, pressionando a disponibilidade de recursos no mercado financeiro. Para ele, esse movimento não deve perder força tão cedo. “Isso puxou a taxa de juros para cima por falta de poupança suficiente para absorver todo esse investimento. Esse fenômeno não vai se dissipar tão já; vamos conviver com taxas de juros globais mais elevadas por bastante tempo”, avaliou.
Schwartsman também comentou os efeitos das tensões geopolíticas sobre o mercado de petróleo. Diferentemente de décadas anteriores, o Brasil passou à condição de exportador líquido da commodity, o que ameniza os impactos de uma alta dos preços internacionais.
“No caso do Brasil, historicamente, o choque de petróleo era negativo. Contudo, atualmente a balança comercial de petróleo bruto do Brasil é positiva. O País passou a se beneficiar desse canal, embora isso não seja suficiente para carregar a economia brasileira nas costas”, ponderou.
Limites do crescimento
Ao tratar da economia brasileira, o palestrante apontou que os principais entraves estão dentro do próprio País. Na avaliação dele, o crescimento registrado nos últimos anos foi sustentado principalmente pelo consumo das famílias e pelos gastos do governo, enquanto os investimentos produtivos tiveram participação menor. “Estamos em um momento em que o Brasil enfrenta desafios consideráveis que não são tão ligados à questão internacional. Ela tem seus impactos, mas os desafios são fundamentalmente domésticos e, de alguma maneira, eles convergem para uma necessidade de uma mudança considerável na política econômica que foi adotada pelo País nos últimos anos”, afirmou.
Outro problema é a baixa produtividade. Segundo Schwartsman, a expansão da ocupação e a redução do desemprego contribuíram para o crescimento recente, mas esse movimento encontra limites diante de um mercado de trabalho aquecido e de ganhos modestos de produtividade. “Temos um modelo de crescimento, mas esse modelo de crescimento está esbarrando em um conjunto de limites. Tem a ver com baixo crescimento de produtividade do País, tem a ver com uma ênfase excessiva no consumo como motor da demanda interna, e esses vetores estão se esgotando”, explicou.
Para o economista, a combinação de produtividade estagnada e pressão sobre os salários dificulta a expansão sustentável da economia e contribui para manter a inflação de serviços elevada, exigindo maior atenção do Banco Central.
Desafio fiscal
Outro ponto central da apresentação foi o crescimento das despesas públicas. Schwartsman mostrou que os gastos primários federais aumentaram cerca de R$ 440 bilhões em termos reais no período analisado, com, aproximadamente, três quartos desse avanço destinados a transferências de renda às famílias, como aposentadorias, pensões, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC). Embora a arrecadação também tenha crescido, o avanço das despesas foi maior, ampliando o desequilíbrio das contas públicas e pressionando a dívida do governo. Os gastos federais subiram de R$ 2,1 trilhões para R$ 2,6 trilhões.
Na avaliação do economista, o problema é agravado pela rigidez do orçamento federal: cerca de 93% das despesas são obrigatórias, o que reduz o espaço disponível para investimentos e outras despesas discricionárias.
Reformas necessárias
Ao concluir a palestra, Schwartsman apontou que a sustentabilidade das contas públicas depende de mudanças estruturais, especialmente nas regras que determinam o crescimento das despesas obrigatórias. Entre os pontos que exigiriam revisão estão a vinculação do salário mínimo aos benefícios previdenciários e assistenciais, os pisos constitucionais de saúde e educação e as regras previdenciárias.
O economista, porém, demonstrou ceticismo quanto à viabilidade política de essas medidas serem aprovadas. Sem mudanças, a tendência seria conviver com juros elevados, instabilidade cambial e crescimento econômico limitado. “Há necessidade de mudar esses vetores e, em particular, mudar a questão do gasto público. E aí a gente analisa para ver qual é a chance de esse negócio ocorrer. E aí eu peço para tocar de novo o tema da ‘Missão Impossível’, porque, enfim, não me parece muito óbvio que isso vá acontecer”, concluiu.
Ao encerrar a programação de painéis do 17º Simpovidro, destacaram-se as empresas que tiveram elevado número de alunos capacitados e certificados emitidos ao longo do último ano pelo Educavidro, reforçando que investir em conhecimento é a chave para garantir o futuro do setor. Para a entrega das placas de homenagem, subiram ao palco o presidente da Abravidro, Víctor V. Casaca; a superintendente Iara Bentes; o presidente da Abividro, Lucas Malfetano; o consultor da Abividro, Maurício Fernandes; e o gerente técnico da Abravidro, Silvio Carvalho. Foram homenageadas pelo Educavidro: Linde Vidros, Maryart, Modelo Vidros, PKO Vidros e Vidrolar.
Acompanhe tudo sobre o evento aqui no portal da Abravidro e nas redes sociais da entidade. A cobertura completa estará presente também na edição de novembro da revista O Vidroplano.
Crédito da foto: Marcos Santos e Andreia Naomi











