O painel Energia: muito além do preço – Riscos, oportunidades e decisões estratégicas para as empresas abriu a programação de conteúdo técnico desta sexta-feira (6) no 17º Simpovidro. Conduzido pela superintendente da Abravidro, Iara Bentes, o talk abordou as transformações no mercado elétrico e os caminhos para garantir a eficiência e a competitividade das indústrias e processadoras de vidro. Participaram do debate o diretor de Projetos da Involt, Jean Vinicius Tremura, e o sócio-diretor da Replace Consultoria, Carlos Alberto Schoeps.
Panorama, encargos e as armadilhas do Mercado Livre de Energia
Abrindo as apresentações técnicas, Carlos Alberto Schoeps explicou como a operação do sistema elétrico nacional e os encargos regulatórios elevam o custo final da energia para as indústrias, mesmo quando elas possuem contratos com preços competitivos. Segundo ele, além do valor negociado no Mercado Livre, a conta inclui subsídios, encargos e custos relacionados ao funcionamento do sistema. “A gente sempre tem aquela situação na empresa: muitas vezes temos um contrato de energia muito bom, com preço barato, mas o nosso custo final está caro. Por que isso acontece? Hoje, além do preço que se paga no Mercado Livre, existe uma infinidade de outros custos que estão sendo agregados”, explicou.
O executivo também destacou os efeitos da expansão das fontes solar e eólica na operação do sistema. Embora a capacidade instalada cresça cerca de 5% ao ano, acima dos 2,5% de aumento da demanda, a geração renovável varia ao longo do dia. Isso exige o acionamento de usinas termelétricas nos horários de menor geração solar, elevando os custos e provocando oscilações no preço da energia.
Outros fatores de pressão são os encargos setoriais, o ressarcimento por cortes na geração renovável, o fim de descontos tarifários para novos consumidores no Mercado Livre e as mudanças trazidas pela Reforma Tributária. Schoeps também alertou para a importância de avaliar a saúde financeira das comercializadoras. Para enfrentar esse cenário, defendeu uma gestão mais estratégica do consumo e dos contratos de energia. “As indústrias devem conhecer detalhadamente o perfil de consumo hora a hora, adequar os contratos de suprimento ao perfil real de operação (modulação), otimizar demandas contratadas e criar mecanismos internos de defesa operacional.”
Soluções, armazenamento e eficiência na fábrica
Na sequência, Jean Vinícius Tremura apresentou soluções de eficiência energética que podem ser adotadas dentro das fábricas para reduzir custos e proteger as indústrias das oscilações do sistema elétrico. Com foco no conceito behind the meter (atrás do medidor), abordou o uso de energia solar junto à carga, sistemas de armazenamento em baterias (Bess) e modelos de contratação como o Energy as a Service (EaaS), que permitem implementar projetos sem investimento inicial da indústria.
O especialista explicou que as baterias podem ser carregadas nos horários de energia mais barata e utilizadas nos períodos de maior custo. Entre os benefícios estão a redução dos gastos com energia no horário de ponta, o controle da demanda contratada e a proteção contra oscilações de tensão, as quais podem interromper processos industriais e gerar grandes prejuízos. “Em indústrias com processos sensíveis, como as vidreiras, uma oscilação de tensão de apenas 10 milissegundos pode desarmar máquinas e exigir protocolos de parada produtiva de seis horas, gerando prejuízos de até R$ 800 mil por ocorrência”, alertou.
Para demonstrar a viabilidade dessas soluções, Tremura apresentou um projeto executado em uma indústria de Três Lagoas (MS), que combinou uma usina solar de 724 kWp com um sistema de baterias de, aproximadamente, 1,78 MWh. No modelo de locação, sem investimento inicial da empresa, a estrutura atende 93% da demanda no horário de ponta e proporciona economia líquida estimada em R$ 32 mil mensais, já descontadas as parcelas do contrato.
Porém, o executivo ressaltou que o dimensionamento deve considerar o perfil real de consumo da fábrica. O projeto não pode ser feito com base no valor médio da conta mensal, mas sim analisando a curva horária real do cliente ao longo das 8.760 horas do ano. “No caso desse cliente de Três Lagoas, descobrimos que ele paralisava a fábrica na sexta-feira ao pôr do sol por questões religiosas. Se tivéssemos feito um projeto genérico, teríamos superdimensionado o sistema e desperdiçado capital. Além disso, é preciso fazer a arbitragem de energia correta: baterias consomem energia para carregar e não há tarifa diferenciada no sábado. O projeto deve prever o uso das baterias no fim de semana apenas para captar excedentes solares que seriam perdidos.”
Ao concluir, Tremura destacou que a geração própria e o armazenamento serão cada vez mais importantes para a competitividade industrial. “Assim como todas as fábricas substituíram lâmpadas de vapor de sódio por fluorescentes e depois por Led, 100% das indústrias intensivas em energia irão adotar sistemas de baterias e geração própria nos próximos anos para manter o controle da sua competitividade.”
Decisões estratégicas
Após as apresentações, a mediadora Iara Bentes conduziu o debate com os especialistas, destacando a relevância da energia na estrutura de custos das processadoras de vidro. Entre os principais alertas estavam a abertura do Mercado Livre para consumidores de baixa tensão, prevista para novembro de 2027, e a possibilidade de novos encargos pressionarem as contas nos anos seguintes.
Carlos Schoeps chamou a atenção para a volatilidade regulatória e a transferência de custos entre os diferentes agentes do setor elétrico. “O sinal vermelho é a volatilidade regulatória e a adição de novos encargos no orçamento de 2027 e 2028”, alertou.
Outro ponto discutido foi a diferença entre a tarifa contratada e o custo efetivo da energia. Jean Tremura explicou que muitas empresas consideram apenas o preço do MWh negociado no Mercado Livre, sem contabilizar despesas como Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição (Tusd), encargos e liquidações na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). “As empresas não estão compreendendo a totalidade da composição das suas faturas”, destacou.
Questionados sobre as primeiras medidas que os empresários devem adotar, os especialistas defenderam uma análise detalhada do consumo e dos processos produtivos, considerando o perfil de utilização de energia hora a hora. Também recomendaram buscar consultoria independente para evitar decisões baseadas em estimativas ou propostas comerciais que não consideram todas as variáveis.
O debate abordou ainda o risco de quebra de comercializadoras. Schoeps recomendou avaliar a solidez financeira dos fornecedores e evitar conflitos de interesse na gestão das operações na CCEE. Jean, por sua vez, defendeu diversificar as fontes de suprimento e investir em geração solar e armazenamento para reduzir a dependência da rede elétrica e ampliar a previsibilidade dos custos.
Sequência da programação
Após o encerramento do debate sobre energia, a programação técnica do 17º Simpovidro prosseguiu com o painel sobre o mercado global de vidros planos, reunindo executivos da AGC e do Grupo NSG.
Acompanhe tudo sobre o evento aqui no portal da Abravidro e nas redes sociais da entidade. A cobertura completa estará presente também na edição de novembro da revista O Vidroplano.
Crédito da foto: Marcos Santos e Andreia Naomi











