Na edição de janeiro de O Vidroplano, a matéria de capa mostrou as expectativas do setor para os próximos meses, com a opinião de diversas empresas vidreiras analisando o que podemos esperar em relação aos negócios do mercado. Este mês, seguiremos olhando para 2026, mas por outro viés: quais aplicações de vidro serão tendência este ano? Confira a resposta a seguir.
Foco nos vidros de valor agregado
Ao longo do ano passado, algumas reportagens de O Vidroplano mostraram o crescimento da participação dos vidros
de valor agregado: de acordo com o Panorama Abravidro 2025, o laminado já representa 15% do mercado de vidros
processados, enquanto a fabricação de insulados subiu quase 50% em comparação a 2024.
Para 2026, espera-se que soluções que ofereçam mais benefícios ao usuário de nosso material ganhem ainda mais destaque. E isso não é achismo das empresas, mas algo baseado na observação das tendências dos últimos anos – afinal, foi-se o tempo em que o vidro apenas fechava vãos: agora, o material precisa atender as necessidades específicas de cada segmento consumidor, combinando eficiência energética, estética e desempenho técnico.
A BN Vidros e Esquadrias, de Pouso Alegre (MG), notou aumento significativo na procura e aquisição do laminado temperado na região onde atua. “Acreditamos que esses produtos ganharão ainda mais destaque este ano, pois temos observado uma mudança nas especificações dos projetos por parte dos arquitetos, os quais estão cada vez mais buscando materiais para agregar valor às obras”, aponta o proprietário da empresa, Bruno Nery.
Para a Steinglass, vidraçaria de São José (SC), o laminado também tem se mostrado mais popular, graças à sua versatilidade de composição e espessuras. “Os dados do Panorama mostram que o Brasil está amadurecendo em termos de aplicação do vidro, graças ao grande trabalho do mercado, incluindo o da Abravidro, para informar sobre as soluções e melhorar nossas normas técnicas. Com isso surge a tendência natural de se usar o vidro certo para cada caso”, reflete seu diretor Sandro Henrique Rensi.
Segundo Dilma Magalhães, sócia-diretora da Lâmina Temper, processadora de Contagem (MG), os laminados já se tornaram
os vidros mais vendidos pela empresa – e isso inclui laminados refletivos e não refletivos, assim como laminados temperados para guarda-corpos e escadas. “É um movimento do mercado que as coisas se popularizem: quando eu era criança, somente pessoas ricas tinham boxe de vidro; hoje, qualquer mortal tem acesso ao produto. No caso do temperado/laminado, são itens que estão bem mais baratos que antigamente”, analisa.
Para o diretor de Marketing da Cebrace, Luiz Gonçalves, vidros de valor agregado representam um caminho natural e irreversível para o setor. “Há, inclusive, um espaço relevante de crescimento em soluções como insulados e laminados acústicos, amplamente utilizados em mercados mais maduros”, indica.
Não podemos nos esquecer também da geração de valor para toda a cadeia com a maior aplicação desses vidros. “São uma alternativa inteligente para impulsionar o crescimento do setor, especialmente em um cenário de maior competitividade”, alerta o gerente de Marketing da Guardian, Arthur Lacerda. “Além disso, sua especificação contribui diretamente para a qualificação dos empreendimentos. Esse é um benefício claro para incorporadoras e construtoras, que passam a oferecer um produto final mais atrativo e alinhado às expectativas do mercado imobiliário.”
O que esperar das aplicações
Os arquitetos, mais do que nunca, estão apostando em projetos com grandes vãos envidraçados, prezando por iluminação e ventilação natural. E à medida que as obras ampliam essas áreas envidraçadas, cresce também a necessidade de soluções que garantam conforto térmico e eficiência energética – o vidro, assim, deixa de ser mero elemento estético e passa a cumprir um papel técnico essencial. Por isso, de acordo com as empresas consultadas, o uso de laminados e de vidros de controle solar continuará em crescimento.
“A arquitetura está sempre em evolução, e o vidro faz parte do processo. Com a versatilidade de nossos produtos, a tendência é aumentar o consumo deles – com isso baixando custos e, consequentemente, aumentando a demanda ainda mais”, comenta Sandro Rensi, da Steinglass. O que esperar, então, dos principais segmentos consumidores de vidro? Abaixo, confira as tendências para o ano em algumas dessas cadeias.
- Arquitetura e construção civil
Em diversos países, o uso de vidros de controle solar que combinam eficiência e aparência neutra já é um requisito básico – e, no Brasil, esse movimento também se consolida. “Isso se reflete na preferência crescente por fachadas mais transparentes, leves e integradas ao conceito arquitetônico. Nesse cenário, ganham espaço soluções que equilibram neutralidade visual e desempenho térmico, produtos que entregam conforto e eficiência sem comprometer a linguagem arquitetônica”, explica Arthur Lacerda, da Guardian.
Para Thiago Malvezzi, gerente de Marketing, Produtos e Especificação Técnica da AGC para a América do Sul, a construção
deverá seguir com um consumo forte de chapas incolores, principalmente por conta do programa Minha Casa, Minha Vida, que
foi ampliado recentemente pelo governo federal. “Essa é uma das grandes expectativas de movimentação para este ano.
Além disso, temos incentivado o mercado na migração do temperado para o laminado – prova disso é a confirmação do nosso
investimento em uma linha de laminação para 2027.”
- Moveleiro
A expectativa é de maior procura por soluções que agreguem design e funcionalidade, de forma a fazer o vidro dialogar com elementos de decoração. Espelhos e vidros refletivos, por exemplo, seguirão como protagonistas, especialmente em móveis planejados e projetos de interiores que valorizam amplitude e luminosidade. “Vidros com maior qualidade óptica, acabamentos diferenciados e aplicações decorativas passam a agregar valor ao mobiliário, acompanhando a evolução do design de interiores”, opina Luiz Gonçalves, da Cebrace. - Linha branca e refrigeração
Para o setor de linha branca (que envolve eletrodomésticos como fogões, geladeiras, cooktops etc.), o acabamento superior que o vidro oferece, na comparação com outros materiais, continuará sendo o diferencial a favor de nossos produtos – isso sem falar na eficiência em desempenho, segurança e estética premium.

Para a refrigeração comercial (que inclui vitrines e câmaras frias), os vidros de alta performance são as melhores soluções existentes. São projetados para melhorar a transparência e a durabilidade, ao mesmo tempo que garantem maior isolamento térmico, permitindo que os sistemas de refrigeração funcionem de forma mais eficiente.
A processadora Rohden, especializada em atender esse segmento, preparou um artigo em seu site apontando as tendências para 2026 para esse ramo. Segundo a empresa, a aposta em vidros mais tecnológicos, com revestimentos anticondensação e de controle climático aprimorados, deverá aumentar – assim como o uso de portas com perfil transparente. “Essa solução, que está rapidamente se tornando protagonista no design de equipamentos refrigerados, oferece uma visualização ainda mais ampla e elegante dos produtos, elevando a experiência do consumidor e valorizando a exposição. Além da estética, as portas com perfil transparente contribuem para uma iluminação mais uniforme e uma percepção mais premium da loja ou ponto de venda, impactando diretamente a decisão de compra”, diz o texto.
- Automotivo
O consumo de vidro no setor automotivo tem aumentado ano após ano, uma vez que o consumidor final enxerga valor em ter entradas de luz maiores, inclusive em tetos solares panorâmicos, o que aumenta a demanda por vidros. Além disso, a tecnologia ganha espaço na parte interna dos veículos. “Isso traz novidades para nosso mercado, como as telas de interação em tamanho maior e, principalmente, a presença de informações espelhadas no para-brisa, mais conhecidas como HUD (heads-up display)”, afirma Thiago Malvezzi, da AGC.
Independentemente do segmento a ser analisado e da tendência em voga, a cadeia vidreira precisa seguir fazendo a lição de casa: levar informação técnica sobre nossos produtos à sociedade como um todo. “As construtoras seguem as normas, mas já buscam os transformadores com o objetivo de baixar o preço, mesmo que tenham problemas de SAC [serviço de atendimento ao consumidor] no futuro”, analisa Dilma Magalhães, da Lâmina Temper. “O consumidor final até paga mais pelo vidro de valor agregado, mas somente depois de explicarmos tecnicamente sobre normas, benefícios e fins a que se destinam.
Os especificadores, como arquitetos, engenheiros e supervisores, precisam ser mais atualizados.”
Aposta no luxo
É no segmento de alto padrão da construção civil que os vidros de valor agregado ganham mais espaço no Brasil. “As esquadrias de alumínio de alto padrão têm sido o produto mais comercializado por nós nos últimos anos, juntamente com os vidros laminados temperados para guarda-corpos”, afirma Bruno Nery, da BN Vidros e Esquadrias.

A busca dos usuários de edificações por maior bem-estar explica essa tendência – que vinha crescendo recentemente, mas explodiu durante a pandemia. Ao invés do brilho dos acabamentos e do pacto visual, o mais importante para um projeto de luxo agora é a qualidade de vida a ser oferecida a seu usuário. “Percebemos um crescimento expressivo na demanda por soluções que entregam conforto e eficiência. O público de alto padrão busca performance técnica e bem-estar. Isso abre espaço para inovações que unem engenharia e design, e vemos um 2026 muito favorável para o setor”, aponta Philipp Killian, diretor da fabricante de esquadrias Weiku.
“A arquitetura de luxo caminha lado a lado com a saúde. Dormir bem, viver em um ambiente ventilado, silencioso e iluminado adequadamente é uma questão de qualidade de vida”, indica a arquiteta Juliana Meda, especialista em interiores e parceira da Weiku. Automação, iluminação natural, ventilação eficiente e um ambiente com temperatura constante e agradável, portanto, tornaram-se elementos essenciais.
Se nas obras de alto padrão, o vidro passou a ser tratado como componente estratégico do projeto, o mesmo ainda não pode ser dito dos segmentos populares. “Neles, ainda predominam especificações mais simples e padronizadas, orientadas principalmente pelo custo e pelo atendimento aos requisitos mínimos de norma. Assim, enquanto no alto padrão o vidro é tratado como investimento e diferencial, no segmento popular ele é visto, majoritariamente, como insumo funcional”, explica Arthur Lacerda, da Guardian.
Fica claro, portanto, que eficiência energética e conforto térmico não devem mais ser encarados como diferenciais, mas, sim, como necessidades. Vale bater na tecla: o desafio do setor vidreiro é ampliar o acesso a essas soluções, mostrando que o investimento em vidro de maior desempenho gera retorno ao longo do tempo.
Texturizado: na linha de frente da decoração
Apesar de ser produzido por apenas uma das usinas de base nacionais (a Cebrace), o vidro texturizado tem garantido presença forte em mostras de decoração pelo País, apresentando-se como uma opção bastante útil em interiores – confira a reportagem da seção Arquitetura & Design, na página 40, para ver aplicações nesse sentido. “Esses produtos atendem uma demanda crescente por ambientes mais personalizados, que combinam estética, privacidade e entrada de luz natural”, comenta Luiz Gonçalves, da Cebrace. Não à toa, a empresa ampliou seu portfólio desse tipo de vidro no fim do ano passado. “O produto dialoga diretamente
com as tendências contemporâneas de decoração e de aplicações em mobiliários, oferecendo uma solução que alia design, versatilidade e sofisticação, reforçando o papel do vidro como elemento protagonista nos projetos.”

A situação crítica dos espelhos
Um clássico do setor vidreiro, presente virtualmente em todas as edificações, o espelho passa por momento de crise no Brasil, pois sua aplicação vem caindo consideravelmente ao longo dos últimos anos: em 2018, o produto representava 28% dos vidros processados no País; em 2024, apenas 20,8% – e de 2023 para 2024, o faturamento das empresas com o material teve baixa de 11,4%.
Há explicação para os números em queda livre? A retração pode estar na mudança do perfil dos projetos arquitetônicos, os quais passaram a utilizar o produto de forma mais criteriosa. “Antes tínhamos muitas obras prevendo espelhos como item de decoração em salas de jantar, de estar e quartos. Atualmente, percebemos que têm sido utilizados apenas em banheiros. Nos closets, as portas antes espelhadas foram substituídas por portas com vidros refletivos”, relata Bruno Nery, da BN Vidros e Esquadrias.
A entrada de maior volume de espelhos importados também pode estar por trás dessa queda, como sugere Thiago Malvezzi, da AGC: “Acreditamos que alguns fatores podem explicar essa redução; porém, o que mais temos notado é a compra de vidros importados pelo próprio consumidor final, por meio de plataformas online – o que não significaria de fato uma redução do mercado, mas sim um redirecionamento da fonte de fornecimento. Hoje, enxergamos esse produto como desafiador”.
Sandro Rensi, da Steinglass, é pessimista em relação ao futuro do material: “Trabalho pouco com espelhos e não tenho explicação lógica para esse tema. Como consumidor, acredito que o consumo não deva aumentar”. Mesmo assim, não se deve riscar o espelho da lista de soluções vidreiras relevantes e modernas. Com a atual tendência vista em grandes cidades, de se construir apartamentos cada vez menores, que muitas vezes nem chegam a 40 m², revestimentos espelhados em paredes podem ajudar a dar uma sensação de amplitude ao espaço.
Esta reportagem foi originalmente publicada na edição de fevereiro de 2026 da revista O Vidroplano
Foto de abertura: Divulgação BN Vidros e Esquadrias








