Na edição de abril do ano passado, O Vidroplano trouxe uma reportagem sobre a crise na mão de obra da indústria nacional, que afeta diretamente as empresas vidreiras. Como vimos naquela matéria, está cada vez mais difícil contratar e reter profissionais qualificados e interessados. De lá para cá, a situação não melhorou – e, talvez, tenha piorado, com novas questões influenciando o assunto.
Já que o tema segue urgente, a revista volta a abordá-lo. Confira a situação tanto da indústria como da construção civil (alguns dos setores que mais empregam no Brasil), a análise de uma especialista em relações humanas e a opinião de companhias vidreiras a respeito do que pode ser feito para reverter o quadro.
Há vagas (muitas delas)
Vivemos um momento de baixa histórica da taxa de desemprego (por volta de 5,6%) e diversos setores sofrem uma espécie de “apagão” da mão de obra qualificada. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), por meio do Observatório Nacional da Indústria, elaborou no ano passado o Mapa do Trabalho Industrial 2025 – 2027. De acordo com o estudo, o Brasil precisaria formar 14 milhões de trabalhadores em áreas estratégicas para a indústria até 2028 a fim de atender os gargalos do setor. Desse total:
- 2,2 milhões ocupariam as novas vagas criadas na economia, substituindo profissionais que saem do mercado;
- 11,8 milhões seriam profissionais que se atualizaram para se manter competitivos em suas respectivas áreas.
Os dados dessa pesquisa são corroborados por outra, a Custo Brasil, realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) com o instituto de pesquisas Nexus: contratar mão de obra qualificada é a segunda maior dificuldade de uma indústria nacional atualmente, sendo apontada como um empecilho aos negócios por 62% dos empresários participantes – perde apenas para o tópico “volume de tributos a serem pagos”.
E a cadeia da construção não está muito diferente: a 2ª edição do Termômetro Falconi da Construção Civil, organizado pela consultoria Falconi, mostrou que o maior obstáculo enfrentado por empresas do segmento em 2025 foi justamente a falta de mão de obra, apontada por 71% dos respondentes (crescimento de 19% em comparação com 2023). “O apagão na mão de obra qualificada deixou de ser apenas um obstáculo momentâneo e se consolidou como o principal vetor de transformação da construção civil brasileira”, comenta Alberto Kunath, cofundador e CEO da Kronan. Em artigo escrito para o jornal O Estado de S. Paulo, ele aponta que, em muitos canteiros, o déficit chega a 30% do quadro necessário. Entre as consequências da ausência de mão de obra experiente estão a elevação dos custos, atraso nos cronogramas e a criação de um ambiente de insegurança para investidores e incorporadoras.
Contextos
Em reportagem para a CNN Brasil, em novembro, o superintendente de Educação Profissional e Superior do Senai, Felipe Morgado, comentou a respeito de um problema histórico do Brasil: o percentual baixo, ainda que em crescimento, de jovens concluindo o Ensino Médio com uma formação técnica. O estudo internacional Education at Glance, realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), indica que 11% dos estudantes brasileiros que concluem o Ensino Médio fazem cursos profissionalizantes – enquanto em países desenvolvidos o índice varia de 35% a 65%. Isso mostra que nossos jovens saem da escola sem um contato próximo com o universo do trabalho.
Além disso, desde o período da pandemia, os trabalhadores trocam mais de trabalho: em 2022, o número de brasileiros que mudaram de emprego entre um ano e outro chegou a ultrapassar os 14%. “O tempo para uma empresa varejista trocar todo o seu quadro de funcionários, em 2020, era de dois anos e três meses. Em 2024, passou para apenas um ano e sete meses”, revelou a economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), Kelly Carvalho, para a mesma reportagem da CNN.
Problema conjuntural, solução estrutural
Renata Rivetti, especialista em relações humanas, saúde mental e futuro do trabalho, apresentou dados relevantes a respeito do comportamento das novas gerações durante palestra no evento de gestão Fast Company Innovation Festival 2025, realizado em São Paulo, em novembro:
- No Brasil, passamos cerca de nove horas e treze minutos, em média, conectados na Internet (segundo a Bloomers). A tendência é ainda mais forte em pessoas jovens;
- 58% dos jovens adultos relataram ter experimentado pouca ou nenhuma sensação de propósito ou significado em suas vidas no mês anterior (segundo a Harvard Graduate School of Education).
Isso mostra que as novas gerações, mesmo com a revolução digital trazida pela Internet à nossa vida, têm dificuldade para encontrar seu lugar no mundo – especialmente no âmbito do trabalho.
De acordo com pesquisa de outubro de 2024, realizada pelo FGV Ibre, 58,7% das empresas brasileiras relatam dificuldades para conseguir novos funcionários ou mesmo reter trabalhadores antigos. Entre as que enfrentam tal adversidade, quase 80% apontam a contratação como o maior desafio quando se fala em gestão de mão de obra. Ou seja, a situação se tornou um problema conjuntural – mas existe explicação para ela. “As pessoas estão mais conscientes do impacto do trabalho na saúde e menos dispostas a tolerar falta de perspectiva. Salário importa, mas não compensa más condições de trabalho, liderança fraca e ausência de sentido”, analisa Renata Rivetti. “A solução passa por revisar o pacote completo do trabalho, como as condições reais, previsibilidade, desenvolvimento, respeito e liderança consistente, não apenas a remuneração.”
É por isso que a cultura do empreendedorismo, somada à queda da atratividade do regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), surge como caminho para parte dos jovens – e da sociedade brasileira como um todo. O Brasil é um país preparado para essa mudança na cultura trabalhista? “Ainda estamos em transição”, aponta Renata. “Preparar o País passa por acreditar que dá para fazer diferente, fazer parte dessa transformação e criar condições reais – sejam culturais, organizacionais e de liderança – para que ela aconteça. Precisamos de relações de trabalho com mais autonomia responsável, flexibilidade negociada e clareza de expectativas dos dois lados.”
E vale apontar algo relevante: aplicativos de transporte e de entregas, como Uber e 99, parecem oferecer mais “liberdade” ao trabalhador, pois permitem uma rotina adaptável, mas a prática pode ser diferente. Pesquisa do IBGE, com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Ministério Público do Trabalho (MPT), mostra que prestadores de serviço dessas plataformas trabalham mais (jornada semanal cinco horas mais longa), tendo um rendimento por hora 8,3% menor que a média dos demais trabalhadores.

O olhar vidreiro para a questão
“A dificuldade não é apenas encontrar profissionais especializados, mas, sim, qualquer tipo de funcionário”, revela Rosemari Bremm, da MaryArt. A diretora da processadora paranaense é bastante franca em relação ao que a empresa tem visto nos últimos tempos: “O maior problema está nos jovens. Temos uma geração diferente, que prefere trabalhar menos e, ao mesmo tempo, quer resultados imediatos. Hoje, a alta rotatividade de funcionários é um dos nossos maiores custos, aliada aos de treinamentos – nós investimos no funcionário, e ele não fica na empresa”.
De acordo com Magda Abreu, business partner e responsável pelo Desenvolvimento Humano da PKO Vidros, a processadora paulista tem conseguido manter índices saudáveis de retenção de talentos. “O desafio, no entanto, é uma realidade do mercado industrial como um todo, principalmente em função das mudanças nas expectativas das novas gerações em relação ao trabalho”. Para qualificar seus colaboradores, evitando idas e vindas, a empresa investe em treinamentos internos, conduzidos por especialistas da própria companhia, com foco em processos produtivos, normas técnicas, segurança e qualidade; e em treinamentos técnicos, de lideranças e colaboradores, com instituições de ensino e consultorias externas, cujo foco está no desenvolvimento comportamental além de ter um acompanhamento próximo das lideranças, que apoiam o desenvolvimento técnico e humano das equipes. “Isso tudo gera equipes mais engajadas, maior senso de responsabilidade, evolução contínua da qualidade dos processos e colaboradores alinhados ao propósito da companhia”, afirma Magda. Neste ano, a empresa ainda vai lançar a Universidade PKO Vidros, plataforma digital que disponibilizará cursos e jornadas específicas para cada cargo aos seus funcionários.
Para Renata Rivetti, a indústria nacional (incluindo a cadeia vidreira) precisa combinar eficiência com humanidade. “Isso significa investir em liderança de proximidade, aprendizagem contínua, comunicação clara e trajetórias de crescimento. Mostrar que indústria é espaço de carreira, não apenas de execução”, explica.
Embate de gerações e saúde mental
Na reportagem que O Vidroplano fez em abril, mostramos alguns conceitos que definem a geração Z (nascida de 1996 a 2010), que já representa quase um terço da força de trabalho no mundo. Além de serem pessoas hiperconectadas, encaram o conceito de hierarquia de forma horizontal, o contrário da forma vertical encontrada na maioria das empresas. Por isso, surge a pergunta: de que forma donos de empresa e gestores com mais idade podem “entender” as vontades e necessidades dos jovens? “O conceito da psicologia positiva ajuda a traduzir o que realmente engaja: autonomia, sentido, uso de forças, reconhecimento e relações saudáveis”, conta Renata. “Para líderes mais experientes, o caminho passa pela escuta real, clareza no que é combinado, desenvolvimento contínuo e um modelo de trabalho mais flexível, com responsabilidade e entrega.”
Entrar na seara da psicologia não é coitadismo: a saúde mental vem deixando as pessoas mais enfermas – o que gera faltas no emprego, diminui a produtividade do funcionário e afeta o funcionamento da empresa. “Cada vez mais, isso é um fator decisivo na escolha e permanência no emprego. As empresas precisam agir de forma estrutural ao revisar cargas de trabalho, práticas de liderança, metas, comunicação e criar ambientes com segurança psicológica, não apenas oferecer benefícios ou ações pontuais”, ensina Renata. E a questão se tornou tão importante que a nova versão da NR-01, a principal Norma Reguladora do Ministério do Trabalho e Emprego, passou a incluir riscos psicossociais em seu texto.
Magda Abreu, da PKO Vidros, comenta de que forma as empresas vidreiras podem se adequar aos novos tempos: “Ações como a criação de trilhas de conhecimento técnico e comportamental, planos de desenvolvimento com reconhecimento nos marcos de carreira e a construção de um ambiente de trabalho colaborativo, saudável e respeitoso fazem toda a diferença para atrair, desenvolver e reter talentos”.
Segurança no trabalho
O número de acidentes de trabalho no Brasil vem aumentando desde 2021 – talvez pela falta de mão de obra qualificada? A pergunta é válida e a ligação entre os assuntos não parece absurda. Dados da Secretaria de Inspeção do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego, indicam crescimento constante nos acidentes ano a ano: 12,63% de 2021 para 2022; 11,91% de 2022 para 2023; e 11,16% de 2023 para 2024. No ano passado, só no primeiro semestre, o aumento foi de 8,98% em relação ao mesmo período de 2024.
Por coincidência ou não, jovens de até 34 anos concentram cerca de um terço das mortes por acidentes de trabalho típicos no Brasil. Esses dados indicam ainda que as partes do corpo mais atingidas refletem ausência ou uso inadequado de equipamentos de proteção individual (EPIs).
“Temos visto frequentemente acidentes por falta de equipamentos de segurança e pela especificação errada no uso do vidro”, conta Rosemari Bremm, da MaryArt. Em setembro do ano passado, por exemplo, um trabalhador morreu no edifício do Centro Empresarial do Aço, em São Paulo – ele instalava películas na cobertura envidraçada do prédio quando um dos vidros quebrou. A apuração da Auditoria Fiscal do Trabalho concluiu que o acidente não foi uma fatalidade, mas sim o resultado de falhas organizacionais e da falta de gestão adequada de segurança: não houve planejamento adequado das atividades, nem análise de risco específica para trabalho em altura, assim como não foram adotadas medidas de proteção que eliminassem o risco de queda (o cinto de segurança era inadequado ao peso do trabalhador e o sistema de ancoragem utilizado era improvisado, sem projeto técnico ou certificação).
Portanto, nosso setor precisa falar a respeito do assunto. Na edição 2025 do Encontro de Mulheres Vidreiras, organizado pela Adivipar-PR, o tema foi abordado, revelando a preocupação da cadeia com o bem-estar físico dos colaboradores. “Tivemos uma palestra que mostrou acidentes ocorridos durante o ano e que levaram à morte de profissionais vidraceiros por desleixo em relação aos perigos do trabalho”, comenta Rosemari. Voltamos, mais uma vez, à importância da qualificação – e também do papel da liderança da empresa para supervisionar as atividades.
A importância da tecnologia
De acordo com Alberto Kunath, em seu artigo para O Estado de S. Paulo, a construção (setor que mais consome vidro) se tornou um segmento que precisa produzir mais com menos gente e maior precisão – cenário que favorece a maior aplicação de tecnologias para automação. Com isso, o canteiro de obras vai deixando de ser lugar para improviso e começa a se transformar em linha de montagem. “A etapa estrutural, tradicionalmente uma das mais críticas, vem sendo levada para fábricas, onde peças e módulos são produzidos sob controle rigoroso e depois montados no local, reduzindo em até cinco vezes o tempo de execução”, explica Kunath.
O especialista afirma que países que enfrentaram desafios semelhantes há décadas, como Japão e Alemanha, já comprovaram que o ganho de escala e eficiência só é possível quando o canteiro se torna extensão da fábrica. “No Brasil, o movimento começa a ganhar maturidade e tende a redefinir o conceito de produtividade no setor. A falta de gente, portanto, não é apenas uma crise. É o gatilho que acelera uma mudança que transforma tijolos em sistemas, andaimes em módulos e o improviso em engenharia de precisão”, revela.
Aí pode estar a inspiração para o setor vidreiro: apostar ainda mais na tecnologia, entrando na Indústria 5.0 – que é a evolução da Indústria 4.0. O novo conceito humaniza a corrida pela automação total, em plena era da inteligência artificial. De acordo com o Sebrae, a Indústria 5.0 se caracteriza pela combinação de máquinas e pessoas, com o objetivo de agregar valor à produção e criar produtos customizados, que atendam as necessidades dos clientes. Nossa cadeia pode se aproveitar disso, especialmente se pensarmos na aplicação de vidros de valor agregado, já que temos como clientes diversos segmentos que precisam de vidros com especificações muito próprias.
O Fórum Econômico Mundial estima que cerca de 85 milhões de empregos devem desaparecer com a automação, enquanto outros 97 milhões podem surgir em funções ligadas a essas tecnologias. Portanto, combinar máquinas inteligentes com a criatividade humana é o futuro.

Endividamento dos trabalhadores preocupa e impacta emprego
Programas do governo federal para aumentar o crédito consignado a pessoas empregadas podem gerar impactos negativos nas empresas. Pesquisa do portal Seu Crédito Digital indica que 83% dos tomadores de empréstimo não sabem a taxa de juros que estão pagando e 69% não avaliam o impacto das parcelas no orçamento antes da contratação. Outro dado preocupante: de acordo com um relatório do Banco Central, o endividamento de trabalhadores da iniciativa privada aumentou 58%. Com isso, cresce a desmotivação, ansiedade e pedidos de demissão com o objetivo de acessar o saldo do Fundo de Garantia por Tempo do Serviço (FGTS) para quitar dívidas.
Para mitigar a situação, o Informe Estratégico Consurt, de agosto de 2025, publicado pela Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), sugere que as empresas implementem programas internos de educação financeira, além de incluir cláusulas em instrumentos coletivos estabelecendo que o empregado que possuir contrato de crédito consignado ativo terá automaticamente suspenso o direito ao adiantamento salarial quinzenal.
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