Valor agregado, sustentabilidade, conforto aos usuários: esses temas se tornaram frequentes nas páginas de O Vidroplano nos últimos anos.
E isso não se dá por acaso, pois a aposta do setor da construção civil em vidros que oferecem mais benefícios às edificações, como o laminado e o insulado, segue crescendo no País – como bem aponta a edição 2026 do Panorama Abravidro. Por isso, conversamos com players do segmento e também da construção para entender como chegamos a esse cenário, refletindo a respeito da importância do trabalho da cadeia vidreira junto aos especificadores e da relevância do usuário final na escolha de matérias-primas diferenciadas. Confira também exemplos de prédios que se deram bem graças aos vidros de maior tecnologia.
Comparação com o passado
A utilização do vidro de valor agregado na construção civil nacional deu um salto ao longo da última década. “Há cinco ou dez anos, muitas dessas soluções estavam concentradas somente em edifícios corporativos de alto padrão e empreendimentos sofisticados. Hoje, vemos
vidros de controle solar, laminados e outros com maior desempenho presentes em uma gama muito mais ampla de projetos”, aponta o gerente de Desenvolvimento de Mercado e Obras da Cebrace, Jonas Sales.
Para o gerente de Marketing e Produtos da AGC, Thiago Malvezzi, dois pontos foram chave para essa mudança de paradigma:
- Revolução sustentável
- O vidro é, por natureza, um produto altamente sustentável. Sua produção apresenta baixa emissão de CO₂ em comparação a outros materiais, e ele pode ser reciclado infinitamente – com uma economia circular bem gerida, o produto pode ser
perpetuamente reintegrado ao ciclo produtivo.
Isso faz com que o vidro saia na frente de outras matérias-primas para o uso em edificações que tenham foco em sustentabilidade, diminuição de resíduos e eficiência energética. - Revolução na arquitetura No campo da arquitetura, as últimas décadas trouxeram uma renovação estética e funcional que valoriza a integração entre ambientes internos e externos, fazendo do vidro um protagonista. No segmento residencial, os vãos livres ganham cada
vez mais importância e sofisticação; já no corporativo, as fachadas envidraçadas entregam luminosidade natural e integração
com o exterior, traduzidas diretamente em bem-estar e produtividade.

ano sem a necessidade de utilização de ar-condicionado ou aquecimento para o conforto térmico (Foto: Divulgação Construtora Laguna)
Atualmente, existem soluções assertivas para cada tipo de empreendimento, o que não era verdade anos atrás, afirma Matheus Sanches, sócio fundador da Bloco Base, escritório de engenharia focado em construção sustentável. “Em relação à seleção de vidros, observa-se uma crescente necessidade de soluções para o atendimento a padrões de desempenho térmico e lumínico”, explica. “Isso faz com que seja necessário combinar desempenhos como transmitância térmica, fator solar e reflexões internas e externas, além de aspectos arquitetônicos, para a determinação dos materiais ideais para um empreendimento. Essa combinação, por muitas vezes, resulta em especificações
técnicas de alto valor agregado.”
Outro tópico a se levar em conta é a mudança no perfil e padrão dos lançamentos imobiliários. “O mercado está mais focado em altíssimo padrão e unidades de interesse social – ou seja, os dois extremos do mercado”, comenta o diretor-técnico da consultoria Crescêncio Engenharia, Crescêncio Petrucci Júnior. “Na faixa de maior valor, a demanda por vidros de melhor desempenho e maior dimensão cresce
junto. Esses empreendimentos têm como características apresentar grandes aberturas envidraçadas, com portas e janelas sempre privilegiando a vista, o que se reflete também na posição dessas portas e janelas, ocupando a parcela mais próxima da borda do empreendimento.” Assim, esquadrias e vidros ganham mais responsabilidade, pois precisam responder melhor à exposição à luz solar para que o sistema de climatização não fique sobrecarregado.
A soma disso tudo colocou o mercado imobiliário no caminho de projetos mais eficientes, alinhados às práticas de construção sustentável.
Chegamos, então, a outro ponto fundamental para a questão: o desenvolvimento da tecnologia vidreira. “A evolução tecnológica do setor permitiu a criação de produtos cada vez mais sofisticados, capazes de combinar estética, transparência, controle solar e eficiência energética. Como resultado, os vidros de valor agregado deixaram de ser uma solução restrita a obras específicas e passaram a fazer parte de um número cada vez maior de empreendimentos, sejam corporativos ou residenciais”, aponta a gerente técnica comercial da Guardian, Heloísa Meister.
Apesar de toda a evolução, ainda estamos longe do visto em outros países, como destaca o gerente de Desenvolvimento de Mercado da Vivix, Luiz Barbosa: “Existe uma diferença significativa entre o Brasil e mercados mais maduros. Por aqui, em muitos projetos, especialmente quando quem constrói não será o operador da edificação, o custo inicial do material continua tendo um peso importante na tomada de decisão, fazendo com que os benefícios de longo prazo nem sempre sejam considerados adequadamente”.
Mesmo assim, a evolução é clara, principalmente pela maior disseminação do conhecimento técnico sobre nosso material. “Avançamos significativamente do ponto de vista normativo. A publicação de normas como a ABNT NBR ISO 9050 e a ABNT NBR ISO 10077-1 trouxe ao mercado brasileiro metodologias padronizadas para avaliação de propriedades ópticas, energéticas e térmicas dos sistemas envidraçados.
Somam-se a isso a evolução da ABNT NBR 15575, a ‘norma de desempenho’, e os trabalhos em andamento para a futura norma de desempenho energético de edificações não residenciais”, reforça Barbosa.

suportar o forte calor pernambucano. Considerando não só o clima, mas também a operação contínua de um
hospital, a redução do ganho de calor pela fachada contribui diretamente para diminuir a demanda dos sistemas de
climatização, os quais representam uma parcela significativa do consumo energético nesse tipo de empreendimento (Foto: Reprodução/Mova Filmes)
Convencendo os especificadores
De acordo com a experiência da Bloco Base, o convencimento de arquitetos e engenheiros em relação ao uso de vidros de valor agregado deve se dar por meio de fatos e dados. “Nosso trabalho é prover indicadores que sustentem uma melhora na eficiência energética e conforto das edificações, sem que sejam deixados de lado itens como sustentabilidade e a viabilidade técnico-econômica das soluções propostas”, explica Matheus Sanches.
Para isso ser possível, são utilizadas ferramentas de simulação termoenergética, as quais têm uma função preditiva, possibilitando a simulação de diversos parâmetros construtivos na fase de projeto. Dessa forma, não há espaços para “achismos”. “Os materiais de maior valor agregado, apesar de encontrarem uma barreira na viabilidade econômica, possuem elevado grau de aceitação e reconhecimento,
desde que suas capacidades estejam comprovadas por meio de estudos”, alerta Sanches.
Petrucci Júnior aponta que, em certos casos, é possível encontrar mais de uma solução viável – quando os critérios de desempenho
não forem muito restritivos; em outras situações, com critérios mais rigorosos, é preciso alinhar pontos de importância com as demais equipes envolvidas no projeto. “Os agentes de decisão sempre trabalham sob demanda. Geralmente, a escolha dos vidros ocorre nas definições
iniciais do projeto e, depois dessa fase, os especificadores e stakeholders aceitam o material que for especificado”, afirma.

processados pela PKO Vidros, ajudam na valorização patrimonial superior a produtos imobiliários similares,
ano após ano, validando o investimento nesse tipo de material como diferencial competitivo duradouro (Foto: Maria Rita/Divulgação GlassecViracon)
“Na maioria dos casos percebemos uma boa aceitação em relação à escolha dos vidros. Sempre há uma tentativa de flexibilizar
algum parâmetro para buscar opções mais econômicas, mas mantendo minimamente o desempenho dentro dos valores preestabelecidos.”
É por isso que o trabalho do mercado vidreiro para a disseminação de conhecimento técnico sobre vidros deve ser incessante, incluindo parcerias estratégicas junto a players da construção. “Atuo no setor há pouco mais de quatro anos e posso afirmar que houve avanços relevantes nessa aceitação. Temos conseguido ampliar a percepção de valor dos vidros especiais junto aos especificadores, mas reconhecemos que ainda há um trabalho expressivo pela frente – e ele é responsabilidade de todos os elos da cadeia”, analisa Thiago Malvezzi, da AGC. Heloísa Meister, da Guardian, concorda: “Mais do que oferecer produtos inovadores, nosso objetivo é apoiar os profissionais na escolha
das soluções mais adequadas para cada aplicação, ampliando o conhecimento sobre os ganhos que esses materiais proporcionam ao longo de toda a vida útil da edificação”.
É importante, também, ouvir o que o outro lado tem a dizer – no caso, os próprios agentes da construção civil. A Construtora Laguna é exemplar na aplicação de vidros tecnológicos em seus empreendimentos – já foi até tema de reportagem de O Vidroplano em 2021. Atuando há 25 anos na cidade de Curitiba, a empresa tem como foco o desenvolvimento de edifícios residenciais de alto padrão, sempre tendo o vidro como elemento fundamental de seus projetos.
Para o diretor de Engenharia da Laguna, Carlos Grazina, a performance e o nível de conforto que os clientes podem desfrutar são primordiais para o trabalho da companhia. “Os vidros são essenciais para ampliar essa experiência, seja na questão da iluminação natural dos ambientes, na integração entre a unidade e o ambiente externo ou na atemporalidade da edificação, valorizando ainda o cuidado para garantir o conforto térmico adequado com especificações corretas na etapa de projeto”, esclarece.

Camboriú (SC), tem na fachada insulados de laminados de controle solar, da AGC, e processados pela GlassecViracon, com consultoria
da Crescêncio Engenharia. A decisão por essa especificação ofereceu conforto para os usuários, ainda mais nas regiões próximas da fachada (Foto: Aflalo Gasperini/Pedro Mascaro)
Poder dos usuários
O consumidor final de nosso material (ou seja, os usuários das edificações) tem algum poder de decisão para que moradias ou escritórios usem vidros de valor agregado? Segundo Matheus Sanches, da Bloco Base, isso não ocorre. “Porém, ele possui poder para solicitar atendimento a critérios normativos de desempenho, qualidade e durabilidade. O atendimento a normas, como a ABNT NBR 15575, faz com que o usuário tenha papel preponderante na verificação das soluções adotadas para os projetos”, explica.
Jonas Sales, da Cebrace, acredita que o consumidor está mais atento ao conforto, à eficiência energética e à qualidade dos ambientes que frequenta. “Mesmo sem conhecer tecnicamente os diferentes tipos de vidro, ele percebe os resultados na prática: ambientes mais confortáveis, menor incidência de calor, melhor aproveitamento da luz natural e menor dependência de sistemas de climatização.”
Portanto, quanto mais a sociedade conhecer a capacidade dos diversos tipos de vidro existentes, mais os players da construção serão incentivados a utilizar esses produtos. “À medida que o consumidor entende que o vidro pode influenciar diretamente seu conforto, seu consumo de energia e a qualidade dos ambientes, ele passa a participar mais ativamente dessas decisões. Esse movimento já está acontecendo, mas ainda existe um longo caminho a percorrer no Brasil”, analisa Luiz Barbosa, da Vivix.
Demonstrar de forma prática os benefícios do vidro oferece ótimos resultados nesse sentido, como mostra a Construtora Laguna: “Trazemos essa abordagem na Galeria Laguna, em Curitiba, por meio de uma fonte de calor onde o cliente pode ter a experiência sensorial de notar a diferença entre um vidro de alta performance e um vidro laminado comum”, revela Carlos Grazina.

Vannucchi. Suas fachadas são feitas com o vidro de controle solar SunGuard AG 43, da Guardian,
processado pela GlassecViracon, que conta com uma aparência prata, oferecendo um aspecto estético único (Foto: PedroVannucchi)
Este texto foi publicado originalmente na edição nº 643, de julho de 2026, na revista O Vidroplano
Foto de abertura: Divulgação Cebrace











