O processo de verticalização das grandes cidades brasileiras não é algo novo, mas tem se intensificado nos últimos tempos, conforme a população cresce e mais gente passa a morar em nossas metrópoles. Quanto mais prédios são erguidos, mais o envidraçamento de sacadas se torna presente no dia a dia das pessoas.
E já que o tema está em alta, O Vidroplano preparou uma reportagem especial, revelando como se dá o trabalho com esse produto, suas tendências modernas de uso, a importância de oferecer conforto térmico e acústico, e o que as normas técnicas dizem em relação ao
seu desempenho.
A evolução das sacadas
Décadas atrás, encontrar uma sacada fechada com vidro não era algo tão simples – sua ocorrência mais comum era em empreendimentos de alto padrão. Mas a forma de encarar esse sistema mudou, especialmente nos últimos anos, como explica o sócio-fundador da Brain Inteligência
Estratégica, Marcos Kahtalian: “A sacada é desejada, e cada família faz seu uso. Temos visto, desde a pandemia, como um fato que passa a ser permanente, a valoração e a vitalização das sacadas. Em alguns mercados, como é o caso de São Paulo, você encontra sacadas gigantescas, as quais precisam ser integradas à sala”.
E, afinal, de onde veio esse desejo por uma instalação que existe há tempos, embora não fosse tão aplicada? “Esse é um ambiente de respiro, exterior, que coloca a pessoa com um pezinho fora do apartamento.
Então, é natural que, entre seus diversos usos, esteja o de fazer uma área para churrasco, uma área gourmet. Vê-se, então, uma ‘gourmetização’ da sacada, com ela ganhando mais espaço, instalações elétricas e virando uma cozinha exterior”, analisa Kahtalian. “Há aqueles ainda que querem fazer do espaço um prolongamento da sala. Por isso, está cada vez mais comum o nivelamento do chão dessas áreas e a retirada de portas-janelas, para transformar tudo num ambiente espaçoso.”
Para a vice-presidente da Setin Incorporadora, Bianca Setin, a sacada deve ser tratada como um elemento arquitetônico estrutural, com impacto direto na eficiência do apartamento. “Em projetos recentes, como o Ibiatã, em São Paulo, levamos essa lógica ao limite, com varandas que percorrem todo o perímetro da unidade.
Essa solução foi, inclusive, um dos fatores que contribuíram para a conquista da certificação Fitwel, que reconhece empreendimentos
pensados para a saúde e o bem-estar dos moradores”, aponta.
Segundo Bianca, fatores como bem-estar, iluminação natural, ventilação e contato com o verde são percebidos como valor agregado real nos segmentos de médio-alto e alto padrão. “Mais do que um diferencial, a varanda bem-resolvida, esteja fechada ou não, passa a ser parte da expectativa do cliente, especialmente quando vem integrada a uma proposta arquitetônica consistente e a uma experiência de moradia mais completa.”
A maior oferta de apartamentos compactos, com redução no número de cômodos e metragens menores, também leva ao interesse de fazer da sacada um local ativo da moradia – caso ela faça parte do projeto.
Portanto, essa área pode ser integrada de diversas formas, tornando-se:
- Espaço gourmet
- Sala de jantar
- Extensão da sala de estar (living)
- Jardim de inverno
- Escritório
- Ou mesmo um ambiente de varanda mais tradicional, para comunicação
com o exterior.

Como projetar
Envidraçar sacadas é um processo que pode começar ainda no início da construção do edifício – isso porque o projeto desse sistema deve ser aprovado em assembleia condominial. Para se saber como a instalação será feita, é necessária uma visita técnica por parte da empresa
vidreira contratada para o serviço. “Nessa etapa, são verificadas as condições estruturais do ambiente, além da medição dos vãos, conferência de prumo e nível, tópicos fundamentais para definir o sistema mais adequado”, revela Rogério Fábio, que atua como medidor da Sanvidro.
“Essa etapa é fundamental porque os problemas precisam ser identificados na medição, e não deixados para o instalador resolver depois”, frisa o diretor-executivo da Solução Sacadas, Marco Magalhães. “Quando necessários, já são previstos correções de nível e prumo e ajustes técnicos para garantir o bom funcionamento.”
Outras particularidades da edificação também são levadas em conta, como a necessidade de ventilação permanente em ambientes que utilizam gás natural e questões relacionadas ao ar-condicionado, quando não há área técnica dedicada, comenta Claudio Mansur, diretor-comercial da Casa Mansur. “Atualmente, cresce a atenção em relação à Instrução Técnica nº 09/2025, do Corpo de Bombeiros, que trata do distanciamento entre lajes e aspectos de segurança contra propagação de incêndio”, frisa.
É importante destacar que o entendimento técnico do Corpo de Bombeiros sobre vidros vem evoluindo em alguns Estados. Em São Paulo, por exemplo, as novas regras relacionadas à prevenção contra incêndio têm gerado muitas dúvidas e, em situações específicas, impulsionado a busca por vidros resistentes ao fogo para compor um fechamento na parte inferior do sistema de envidraçamento, como uma proteção fixa.
Essa solução não se aplica a todos os casos: ela é uma das opções a ser considerada quando o consumidor deseja instalar o envidraçamento e o projeto original da edificação não prevê o atendimento às exigências dos Bombeiros em relação à prevenção contra incêndio.
A alternativa, no entanto, deve ser avaliada por empresas especializadas. Isso porque não apenas o vidro, mas todos os componentes, como perfis e sistemas de vedação, precisam apresentar o mesmo Tempo Requerido de Resistência ao Fogo, devidamente comprovado por ensaios
laboratoriais. Vale reforçar que os vidros convencionais não são resistentes ao fogo, mesmo quando temperados ou laminados temperados.
Além da escolha dos tipos de vidro, aberturas e componentes, não se deve esquecer das questões estéticas. “É importante verificar como é a fachada do prédio. Existem empresas que não se atentam ao tipo de vidro usado na fachada, de forma a se seguir o mesmo padrão. Nós também verificamos a cor das esquadrias já utilizadas”, reforça a diretora da vidraçaria Decorvid, Patrícia Sakamoto. Após essas definições, o projeto deve ser aprovado pelo condomínio. “Existem assembleias em que entram duas empresas concorrentes para apresentar opções, e o projeto escolhido é passado para todos os moradores. Quem quiser fazer com a empresa ‘A’, faz; quem quiser fazer com ‘B’, também pode — basta seguir o que foi aprovado”, esclarece Patrícia.
Depois disso tudo, o envidraçamento começa a ser fabricado sob medida. “Todo o material é produzido de forma organizada, numerada e identificada, facilitando a instalação e evitando erros na montagem”, comenta Magalhães, da Solução Sacadas.
Em alta
Atualmente, os sistemas mais utilizados são os modelos deslizantes e pivotantes, conhecidos como sistemas retráteis. “Eles se destacam pela possibilidade de manter praticamente 100% do vão aberto, oferecendo maior integração entre os ambientes. Existem versões com ou sem
roldanas aparentes, variando conforme o projeto e a proposta estética desejada”, afirma Cláudio Mansur.
Segundo ele, os sistemas compostos por vidros fixos e janelas de correr tradicionais vêm perdendo espaço no mercado, principalmente porque reduzem a abertura da sacada. “Em muitas cidades, esse tipo de fechamento pode, inclusive, ser interpretado como ampliação de área útil, gerando restrições ou cobranças específicas.”
A principal tendência moderna, portanto, é a busca por sistemas cada vez mais discretos, com perfis reduzidos, painéis maiores e maior transparência visual. Ao mesmo tempo, a facilidade no manuseio dos modelos sem roldanas, que deslizam sobre um náilon de alta resistência,
ganha espaço entre os usuários: “Todo o peso do sistema fica concentrado na parte de baixo. Esse tipo de envidraçamento não cede, e fica fácil de movimentá-lo”, comenta Patrícia Sakamoto, da Decorvid.
Outro conceito em voga é o uso de vidros mais largos. “Antigamente, os sistemas trabalhavam com folhas de até 500 ou 550 mm de largura. Hoje, nosso sistema permite folhas de até 810 mm, reduzindo a quantidade de painéis e proporcionando uma estética mais integrada”, aponta Magalhães, da Solução Sacadas.

Sempre em ordem: a importância da manutenção
Assim como qualquer sistema construtivo, o envidraçamento de sacada exige manutenção preventiva periódica para garantir segurança, desempenho e durabilidade.
Segundo a norma desse produto (a ABNT NBR 16259 — Sistemas de envidraçamento de sacada – Requisitos e métodos de ensaio), a limpeza e a conservação da instalação – que são uma forma de manutenção preventiva – precisam ser feitas a cada doze meses em regiões urbanas e a cada seis meses em regiões litorâneas e industriais. “Nessas revisões são feitos ajustes, lubrificação e verificações gerais dos componentes. Quanto maior o tempo sem manutenção, maior pode ser o custo de reparos futuros”, aponta Cláudio Mansur.
“Em nossa experiência, o que mais gera manutenção são os clientes que não abrem e fecham a sacada da forma certa, não conseguindo arrumar o vidro na posição”, aponta Patrícia, da Decorvid. Por isso, a orientação dos clientes em relação ao uso correto do sistema faz toda a diferença.
Cuidados na instalação
É fundamental que a instalação siga, rigorosamente, o projeto e as especificações técnicas definidas para aquele sistema. Antes da montagem, devem ser conferidas mais uma vez as medidas do vão, além das condições de prumo, nível e alinhamento da estrutura. “É importante ainda verificar os pontos de fixação e utilizar ferramentas adequadas para garantir o correto funcionamento, vedação e segurança do sistema”, explica Rogério Fábio, da Sanvidro.
Um dos pontos cruciais dessa etapa é a avaliação das condições estruturais da sacada. Para evitar o comprometimento do desempenho, deve-se checar questões como:
- Trincas
- Desalinhamentos
- Infiltrações e demais vulnerabilidades
Ao final, são feitos os ajustes necessários, sendo repassadas ao cliente as orientações de uso, limpeza e manutenção preventiva do envidraçamento.
Proteção contra o frio e o calor
Além de ampliar espaços, garantir beleza estética e proteger parcialmente contra chuvas e ventos (veja mais a respeito a seguir), o envidraçamento de sacadas é ferramenta chave para o conforto térmico de um apartamento. Em um mundo pós-pandemia no qual as residências
precisaram se adaptar às novas necessidades da sociedade, de forma a oferecer mais bem-estar para as pessoas, esses sistemas ganharam ainda mais relevância, como explica Rogério Fábio, da Sanvidro:
- Em períodos de temperaturas mais baixas, o sistema ajuda a preservar a sensação térmica interna da sacada e dos ambientes integrados, evitando a circulação de vento;
- Já em momentos de calor, seu desempenho pode ser potencializado com a utilização de vidros de controle solar ou outras composições específicas – sendo possível, inclusive, aliar a instalação a conceitos de ventilação natural, conforme a necessidade do projeto.
Os vidros de valor agregado se mostram essenciais para essa função. E não se pode esquecer ainda da contribuição dessas instalações para o conforto acústico. Com o trânsito de veículos cada vez maior – e um número crescente de canteiros de obras nas principais capitais brasileiras –, uma sacada fechada contribuirá na atenuação do barulho, especialmente quando combinada com laminados acústicos, feitos com interlayers produzidos especialmente para essa tarefa.
Quão estanque o sistema precisa ser?
As fabricantes de envidraçamento de sacadas tentam entregar seus sistemas com o máximo de vedação possível, adotando folgas mínimas entre os vidros – além de apostar no uso de escovas ou perfis de vedação. Em condições normais, essa prática funciona bem e acaba criando a percepção de que a sacada está totalmente vedada.
No entanto, muitos usuários não conhecem a definição desse produto segundo sua norma, a ABNT NBR 16259: “Sistema composto por painéis deslizantes, pivotantes e/ou fixos de vidro de segurança, que tem como objetivo possibilitar a proteção parcial contra intempéries
de uma sacada ou varanda”. Em chuvas intensas com vento ou temporais muito fortes, a entrada de água e vento pode ocorrer, sem que isso represente falha ou defeito. Portanto, tenha em mente que o sistema melhora o conforto, mas não transforma a sacada em um ambiente
100% vedado.
“A própria forma de fixação do vidro indica isso, já que não tem uma esquadria que faça essa vedação; é um vidro encostado no outro. Isso tudo a gente explica bem no começo do processo ao cliente”, destaca Patrícia Sakamoto. Como afirma Cláudio Mansur, cabe às fabricantes e instaladores orientarem corretamente o consumidor sobre as reais características, vantagens e limitações da instalação: “Quando bem-especificado, instalado e utilizado, o sistema oferece excelente desempenho, conforto e proteção, sempre dentro da proposta para a qual foi desenvolvido”.

Olhando os requisitos
A ABNT NBR 16259 permite o uso apenas de vidros de segurança em envidraçamentos de sacadas – ou seja, vidros temperados ou laminados. Independentemente da espessura e do tipo de vidro especificado, é necessário que o sistema atenda o ensaio de resistência às cargas de vento, estabelecido na própria norma, conforme a pressão do vento incidente no local da instalação (a região do País), considerando
ainda a quantidade de pavimentos ou altura do prédio.
Além da resistência ao vento, a norma exige que o sistema seja submetido a outros ensaios, a fim de avaliar seu comportamento
ao longo do tempo e em situações reais de uso, incluindo:
- Abertura e fechamento repetidos: verifica a durabilidade e o funcionamento do sistema no dia a dia;
- Impacto de corpo mole: simula o choque de uma pessoa contra o vidro, avaliando a segurança;
- Resistência à corrosão: avalia a durabilidade dos componentes metálicos, principalmente em ambientes agressivos (como regiões litorâneas).
Existem ainda dois pontos abordados pela ABNT NBR 16259 que requerem extrema atenção. Um deles é a instalação sobre guarda-corpos. Em muitos casos, o envidraçamento é instalado em cima dessa estrutura, o que é permitido. Porém, a norma determina que o responsável pela instalação do envidraçamento se torne responsável também pela conformidade dos guarda-corpos em relação à norma dessa aplicação (a ABNT NBR 14718 — Guarda- -corpos para edificações). Assim, o conjunto guarda-corpos e envidraçamento deverá atender os requisitos da ABNT NBR 16259 e do ensaio de resistência a cargas uniformemente distribuídas, que deve ser realizado no sistema completo.
O outro ponto relevante diz respeito ao peso do sistema, a ser considerado ainda na fase de projeto. É necessário avaliar:
- A capacidade estrutural da edificação;
- A concentração de carga na área de recolhimento dos painéis, quando o sistema está totalmente aberto (ponto crítico);
- As cargas adicionais após o fechamento da sacada, como móveis e outros elementos.
Em edifícios em que o sistema será instalado em várias unidades, também é preciso considerar a carga total adicional no prédio,
multiplicando o peso do sistema pelo número de apartamentos que receberão o fechamento.
Este texto foi publicado originalmente na edição nº 641, de maio de 2026, na revista O Vidroplano
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