Abividro alerta para avanço do vidro importado no mercado brasileiro

Lucien Belmonte analisa os impactos dessa movimentação e as ações do setor para garantir uma competição sustentável com a indústria nacional
Por Redação Abravidro
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Abividro alerta para avanço do vidro importado no mercado brasileiro

A importação de vidros planos e processados ganhou grande volume nos últimos anos. Para esclarecer a atual situação sob o ponto de
vista das usinas, e as ações em curso de defesa comercial, o VidroCast recebeu Lucien Belmonte, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro). Confira, a seguir, trechos da conversa. A entrevista completa está disponível no canal da Abravidro no YouTube, além de no Spotify, Deezer e SoundCloud.

A quantidade de float estrangeiro que entrou no Brasil aumentou exponencialmente de 2023 a 2025, retornando a patamares de antes do primeiro antidumping em 2014, mesmo com o aumento da nossa oferta nacional. Como a Abividro enxerga essa situação?
Lucien Belmonte – O que nós queremos é uma competição igualitária e tributariamente neutra. As empresas instaladas no Brasil possuem atuação global, tecnologias de vanguarda, com fornos superatualizados e produtividade em dia. Não há razão para os disparates de preços que vemos no mercado. Essa diferença de valor pode vir de dumping, de efeitos tributários ou de subsídios. Obviamente, a indústria
brasileira quer se defender, exigindo condições competitivas justas, e tem levado essa preocupação para o governo.

O ano de 2026 começou de forma bastante desafiadora. Apenas em janeiro e fevereiro, superamos 30% de tudo o que foi importado de float em 2025. Quais são as perspectivas para os próximos meses?
LB – Com os recentes conflitos, como a guerra envolvendo o Irã, o frete marítimo mais do que triplicou, chegando a ultrapassar a marca de US$ 3.400. A tendência é que a importação fique muito mais cara, gerando um refluxo. Ao mesmo tempo, levamos uma série de preocupações ao
governo e há investigações em andamento que devem trazer soluções em breve. É preciso lembrar que temos quatro empresas estabelecidas aqui, as quais investiram mais de R$ 1,5 bilhão por forno de float, prontas e com capacidade para atender todo o mercado nacional.

“Quem exporta para cá não está nem aí para o mercado brasileiro; o negócio deles é o ganho rápido”, Lucien Belmonte

A importação deixou de impactar apenas a matéria-prima e passou a afetar também os processados. Em 2025, tivemos mais de 37 mil t de temperados e quase 39 mil t de laminados importados, enquanto nosso parque fabril opera com grande ociosidade. Como você avalia essa ameaça?
LB – Quem exporta para cá não está nem aí para o mercado brasileiro; o negócio deles é o ganho rápido, o “quick win“. Para eles, tanto faz se depois o nosso mercado vira “terra arrasada”. O problema mais importante é a perenidade do mercado brasileiro. A forma como essa importação vem sendo feita pode levar a uma quebradeira enorme no futuro, destruindo empresas históricas. Por isso, temos trabalhado junto
aos processadores: já temos o antidumping do temperado de linha fria e entramos com o pleito da linha quente e dos laminados
para defender a cadeia.

Os processos de defesa comercial podem levar até dezoito meses para serem avaliados, como no caso da Malásia. Isso não os torna menos eficazes? O que o setor pode fazer além do antidumping para ser mais competitivo?
LB – Nós sabemos dessas dinâmicas, por isso estamos ampliando o nosso olhar e discutindo outros elementos com o governo, como o combate aos subsídios e às fraudes nas importações, a exemplo dos descaminhos ocorridos por Rondônia. Além disso, a indústria de base tem feito
o máximo possível para ser competitiva: lideramos pautas regulatórias fundamentais sobre o custo do gás natural e da energia elétrica. A competição também precisa ser justa no método: aqui no Brasil, temos regulações que exigem o uso de gás natural e biometano; enquanto isso, 50% da produção de vidro plano na China é feita à base de carvão, destruindo o planeta. Queremos que a sustentabilidade também
entre na equalização da competitividade.

Além das medidas de defesa comercial, que outras iniciativas a indústria vem adotando para fortalecer o mercado nacional e diferenciar o vidro produzido no Brasil?
LB – Temos trabalhado de forma conjunta com a Abravidro em várias frentes importantes para o setor. Um dos pontos centrais é a questão das normas técnicas e da conformidade dos produtos, para garantir que o vidro importado atenda às mesmas exigências de qualidade e segurança que são obrigatórias para quem produz no Brasil. Outro aspecto relevante é a capacitação de mão de obra, com iniciativas como a plataforma Educavidro, que leva conhecimento técnico para profissionais da cadeia e para especificadores. Também estamos ampliando o diálogo com outros segmentos da construção, porque precisamos levar soluções cada vez mais próximas do cliente brasileiro, com as características do nosso mercado, em vez de simplesmente replicar modelos europeus, especialmente no avanço da construção industrializada.

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“A sustentabilidade é uma agenda para o futuro que veio para ficar e que vai nos obrigar a sermos melhores”, Lucien Belmonte

Por falar nisso, a demanda por materiais sustentáveis e com menor pegada de carbono pode se tornar um diferencial para a competitividade da indústria nacional?
LB – A sustentabilidade é uma agenda para o futuro que veio para ficar e que vai nos obrigar a sermos melhores. A indústria do vidro tem mostrado um enorme protagonismo, participando de discussões fundamentais, como do Plano Clima e Indústria, da Estratégia Nacional de Descarbonização da Indústria, e estamos trabalhando com a Secretaria Especial do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda. Fazer uma edificação hoje que não pense na eficiência energética será péssimo para os próximos cinquenta ou setenta anos. Por isso, é essencial que entreguemos projetos cada vez mais eficientes e alinhados às demandas ambientais.

Quais são as projeções que você faz para o mercado vidreiro em 2026?
LB – Não dá para prever o que pode acontecer amanhã. Vivemos um cenário internacional instável, com conflitos no Oriente Médio que podem afetar o fornecimento de gás e petróleo e provocar rupturas nas cadeias produtivas, especialmente na Europa. O Brasil está um pouco mais protegido, mas também enfrentamos incertezas internas, como o ano eleitoral e questões políticas em aberto. Diante de tantas variáveis, eu não sei quem vai ganhar a eleição, mas sei o que sempre vence: o boleto. Por isso, a única coisa que podemos fazer é trabalhar.

Gostou da entrevista? Assista à conversa completa no YouTube:

Este texto foi publicado originalmente na edição nº 639, de março de 2026, na revista O Vidroplano.

Fotos: Pedro Amorim

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