Fique atento às mudanças tributárias para 2026

Halim José Abud Neto explica os impactos do fim do regime de ST para vidros em São Paulo e do início da Reforma Tributária no Brasil
Por Redação Abravidro
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Fique atento às mudanças tributárias para 2026

O ano de 2026 começou com duas grandes mudanças para o nosso setor: o fim do regime de Substituição Tributária (ST) para vidros no Estado de São Paulo e o início da Reforma Tributária, com mudanças válidas já desde 1º de janeiro de 2026. Para esclarecer dúvidas sobre esses assuntos, o VidroCast recebeu o advogado Halim José Abud Neto, assessor-jurídico da Abravidro para Temas Tributários. Confira a seguir algumas das explicações de Halim e assista à entrevista completa no canal da Abravidro no YouTube.

A Abravidro realizou com sua participação, em novembro e dezembro, dois workshops para os associados da entidade, sobre esses dois temas. Por que esses assuntos são tão relevantes para a cadeia produtiva nacional?
Halim José Abud Neto –
A questão tributária impacta qualquer tipo de setor da economia. Então, obviamente, é necessário haver atenção em relação à sua interpretação, legislação, aplicação e riscos em relação à adoção de alguns regimes de tributação. Claro, o setor do vidro plano já é um segmento mais organizado — e a gente conhece bem os elos da cadeia —, mas esse entendimento também tem uma influência radical em relação a questões de interpretação das legislações.

No caso da ST, a saída de São Paulo desse regime traz alterações na composição de preço dos produtos, regra de negócio, operações interestaduais – e, saliente-se, não é do dia para a noite que as empresas vão absorver isso. Então, é importante ter esse canal de comunicação para a gente difundir cada vez mais essas informações.

Há anos, a Abravidro, o Sinbevidros-SP e a Abividro pleiteavam junto ao governo do Estado de São Paulo a retirada dos itens classificados como vidros planos do regime da ST. O que é esse regime e para quê ele foi criado?
HJAN –
A Substituição Tributária é um sistema, dentro do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), que permite ao primeiro elo da cadeia fazer o recolhimento para todos os demais. O substituto tributário, no nosso caso, são as usinas e processadores que pagam a ST sobre os demais elos. Isso traz uma eficiência de fiscalização, pois o fisco não precisa fiscalizar todas as cadeias, já que só se tem o recebimento na primeira ponta. Mas a gente observou as particularidades do nosso setor e pensou, “por que tem ST para o setor vidreiro?”. O Estado colocou o regime como uma ideia de eficiência de arrecadação, mas isso trouxe distorções para vários segmentos.

“A saída de São Paulo do regime de ST traz alterações na composição de preço dos produtos, operações interestaduais – e, saliente-se, não é do dia para a noite que as empresas vão absorver isso.” Halim José Abud Neto

O vidro plano não é um produto final: temos uma cadeia vertical que começa na produção do float pelas usinas, passa pela cadeia de transformação, vai para as áreas de acabamento e instalação e para o consumidor final – que podem ser a construção civil, o setor automotivo, de linha branca e moveleiro. Por que saber isso é importante na hora de se entender a retirada do vidro do regime da ST?
HJAN –
Eu me recordo de uma reunião que tivemos com a equipe técnica da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, que trata exatamente da pesquisa da ST. E ali demonstramos, pelos estudos que a Abravidro já desenvolve há muitos anos – principalmente o Panorama Abravidro –, como funciona o nosso setor. Como você bem observou, o vidro é principalmente uma matéria-prima, um insumo utilizado em outras indústrias. Aí chegou-se a uma conclusão de que alguns elos da cadeia não têm necessidade da ST. O regime da Substituição Tributária é mais voltado para setores pulverizados, como o de eletroeletrônicos – e como o setor vidreiro é especializado, não tem essa necessidade de um controle eficiente de arrecadação e fiscalização. Assim, chegamos a esse trabalho que culminou com o êxito da saída, depois de dois anos, a partir do último pleito oficial.

É importante ressaltar que essa medida não envolve apenas as empresas localizadas em São Paulo: quem vende vidro para São Paulo ou compra vidro desse Estado também precisa estar atento às mudanças a partir de janeiro, certo?
HJAN –
Sim. No caso de operações interestaduais, se a gente imaginar uma operação vinda do Paraná para São Paulo, por exemplo, o contribuinte do Paraná tem de olhar a legislação de São Paulo; ele vai ver que não tem ST no vidro plano, e, então, ele não recolhe para o Estado de São Paulo. Isso significa que o produto vem sem a Margem de Valor Agregado (MVA), vem com débito e crédito, e a operação segue dentro de São Paulo.

Se São Paulo remeter para outros Estados, vai ter de olhar se aquele Estado tem ou não ST internamente, e se São Paulo tem um acordo com ele: se não tiver, o remetente não precisa recolher ST. Isso traz complexidade? Sim, mas é uma complexidade boa, porque é uma novidade no aspecto da retomada de um regime de tributação que as empresas já adotavam lá em 2005, 2006 – e aí se consegue, de fato, ter uma composição de custo do produto, sem ter o efeito da Substituição Tributária.

“Demonstramos em São Paulo, pelos estudos que a Abravidro já desenvolve há muitos anos, como funciona o nosso setor e que ele não tem necessidade da ST.” Halim José Abud Neto

Vamos falar da Reforma Tributária, cujas primeiras modificações entraram em vigor a partir de 1º de janeiro. Será um processo longo, até 2032, para tudo começar a funcionar, mas já começamos a viver essa realidade. Quais são os grandes ganhos dessa reforma sob a perspectiva do processador de vidro?
HJAN –
Essa foi uma mudança histórica e necessária. Desde a Constituição Federal de 1988, convivíamos com o cenário de necessidade de ajuste da legislação, e o ICMS foi se moldando num aspecto muito ruim, principalmente na questão de benefícios fiscais. O sistema tributário hoje é caótico; existe um risco que a gente sempre fala de insegurança jurídica, de interpretação, consultorias – horas “perdidas” para atender obrigações acessórias.

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E o que vai mudar na prática, a partir de 1º de janeiro de 2026, para o processador?
HJAN –
O setor vidreiro não tem uma particularidade dentro da Reforma Tributária. Isso é muito bom, porque a gente vai ter uma regra isonômica para todos; se houvesse alguma situação diferenciada, poderia criar o que a gente chama de “guerra fiscal”. Nosso setor vai ficar um pouco mais tranquilo sob o aspecto de tomada de crédito, lembrando que uma das particularidades desse novo sistema da Reforma Tributária é a não cumulatividade plena. Nosso setor terá tranquilidade em tomar crédito, porque, como ele vai ter direito a crédito de tudo aquilo que entrar, não vai precisar controlar se o produto, insumo ou matéria-prima darão direito ao crédito ou não. Então, eu entendo que setores com uma produção um pouco mais complexa terão vantagem em termos tributários; haverá, efetivamente, uma diminuição de carga tributária para o setor da indústria.

No workshop realizado pela Abravidro para apresentar as mudanças trazidas com a Reforma Tributária, você comentou sobre a importância de as empresas investirem em tecnologia e na qualificação dos seus times também, para lidar com esse novo momento, certo?
HJAN –
Isso mesmo. O Brasil é um case mundial de emissão de nota fiscal eletrônica, e o sistema financeiro se apurou muito. Isso foi absorvido pela Reforma Tributária: a Receita Federal vai usar a tecnologia como um fator de controle, e o Comitê Gestor, que foi recém pré-constituído, também vai utilizar o banco de dados e os repositórios como uma base de controle. Então, as empresas precisam estar atentas e investir mais em tecnologia – não só em software, em controles, em hardware, mas também naquilo que você consegue trazer para dentro da sua empresa, junto com as áreas fiscal e financeira, com o RH, com contratos, com o cadastro; ou seja, vai envolver todas as áreas das empresas.

“O nosso setor vai ficar um pouco mais tranquilo sob o aspecto de tomada de crédito, lembrando que uma das particularidades desse novo sistema da Reforma Tributária é a não cumulatividade plena.” Halim José Abud Neto

Há algum ponto específico que você recomenda que as empresas dediquem uma atenção especial para evitar problemas no começo do ano?
HJAN –
Acho que o primeiro grande passo é cultural: você precisa apagar tudo que conhece do antigo sistema e olhar o atual como uma regra 100% nova. Se você ainda carregar alguns vícios do antigo, sempre estará em desacordo com o novo. Teremos uma apuração assistida dos tributos Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). Isso é totalmente novo para nós.

Então, acho que o primeiro grande passo é realmente “virar a chave” no aspecto de cultura e de atenção em relação à parte operacional; o layout das notas fiscais é o ponto inicial – eu só vendo se eu faturar, certo? Fatura, venda: tudo isso está junto. E para emitir nota, você tem a sua base de assessoria interna ou externa. Então, essa base precisa estar muito bem-azeitada para que não tenha problemas.

Mas, em linhas gerais, temos certa tranquilidade, uma forma mais fácil de entender a legislação.

Qual o seu recado final?
HJAN –
Quero destacar o compartilhamento de conhecimento: você, que é um processador, ou uma associação que está na nossa base, divulgue esse conhecimento, permita que ele chegue aos outros elos da cadeia. Uma coisa pode parecer ser simples na análise, mas a empresa precisa internalizar isso, entender que precisa olhar seus fornecedores, fazer contas, simular cenários e ver onde conseguirá ter resultados melhores.

Também é importante acompanhar todos os canais de comunicação dos entes federados, como da Receita Federal e do Comitê Gestor, onde há uma base de informações muito boa. Vale destacar que a Abravidro tem uma atuação grande nesse trabalho de relação institucional com os órgãos públicos, e também na disseminação de conhecimento com os workshops e debates que ela organiza. E isso traz ganho para o setor vidreiro como um todo.

Este texto foi originalmente publicado na edição 637 (janeiro de 2026) da revista O Vidroplano. Leia a versão digital da revista.

Fotos: Ivan Pagliarani

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