Em setembro de 2024, O Vidroplano perguntou a empresas vidreiras como a inteligência artificial (IA) seria aplicada em nosso setor nos mais variados aspectos – na produção, marketing, atendimento ao cliente etc. Hoje, cerca de um ano e meio depois, essa tecnologia já se tornou uma realidade na atividade fim das empresas: o processamento do vidro. Por isso, voltamos ao tema para entender como os conceitos da IA estão sendo aplicados às nossas indústrias – e de que forma podem deixar as etapas de beneficiamento mais eficientes.
Funcionamento
A implementação da IA na rotina da indústria de processamento se dá por meio de três camadas tecnológicas principais:
- Sensores industriais e coleta de dados em tempo real: temperatura, pressão, energia, velocidade, qualidade óptica e diversos outros parâmetros são continuamente monitorados;
- Aprendizado de máquina: algoritmos analisam grandes volumes de dados históricos e operacionais para identificar padrões de desempenho;
- Plataformas digitais conectadas: permitem análise remota, dashboards inteligentes e recomendações automáticas para otimização do processo.
“Toda essa arquitetura permite que as máquinas melhorem a performance delas ao longo do tempo”, explica Moreno Magon, CEO da MM4Glass e diretor de Vendas e Marketing da Latamglass, empresas que representam no Brasil a fabricante de maquinários finlandesa Glaston. A grande chave para o funcionamento disso tudo são os algoritmos. “A integração entre os sistemas é formatada de forma personalizada para cada regra interna”, revela Jones Hahn, CEO da NEX Soluções Inteligentes. “O algoritmo é desenhado a três mãos: processadora de vidros, engenharia montadora da solução/ máquina e fornecedora da tecnologia.”
Benefícios para o processamento
São várias as funções da IA para a empresa vidreira:
- Otimização automática dos parâmetros de processo;
- Controle inteligente da qualidade do vidro;
- Detecção automática de defeitos;
- Manutenção preditiva;
- Análise de desempenho da produção.
“Na prática, a IA pode ajudar a melhorar o desempenho produtivo, ajustar os gargalos de produção, fazer ajustes de parâmetros
automáticos, identificar defeitos com mais precisão e otimizar o consumo de energia e desempenho”, analisa Ricardo Costa, diretor da GlassParts. “E a tecnologia não interfere positivamente apenas na produção, mas na gestão da empresa como um todo, incluindo a elaboração de estratégias de vendas, no marketing e na logística.”
Pensando nas diversas etapas do processamento, quais seriam os ganhos que a IA traz para cada uma delas? Jones Hahn, da NEX, utiliza maquinários de marcas que representa em nosso país para explicar passo a passo como essa tecnologia atua em uma peça de vidro. Veja a seguir:
- No processo de corte, o sistema ERP realiza otimizações com base em um algoritmo avançado para garantir o máximo aproveitamento das chapas de vidro. Assim que o ERP envia o pacote de otimização final para a linha de corte, ele não apenas atribui tarefas às máquinas como também determina a composição do lote para o forno de têmpera. Cada peça de vidro é processada rigorosamente de acordo com o plano de produção.
- Cada peça de vidro recebe uma identidade única por meio de um código Data Matrix (DM). O sistema é capaz de imprimir marcações, códigos, logotipos e outras informações em qualquer posição necessária no vidro, com base nas especificações do pedido.
- Após o corte, o sistema registra informações detalhadas sobre cada chapa e envia os dados de volta para o ERP. Isso permite o monitoramento da produção em tempo real e o controle de qualidade durante todo o processo.
- Chegando à lapidação, essas informações são compartilhadas com a lapidadora, permitindo que ela ajuste automaticamente os parâmetros
com base nos diferentes tamanhos e espessuras do vidro, bem como nos requisitos de processamento – como polimento ou remoção da camada
low-e nas bordas. Se for necessário desbaste, por exemplo, o rebolo se ajusta automaticamente: isso significa que a operação da máquina não depende mais de trabalho manual, sendo totalmente controlada por instruções do sistema baseadas nas ordens de produção. - Outro processo inovador é a mesa de montagem de cargas para o forno de têmpera. O vidro é posicionado e configurado de forma rápida e precisa de acordo com o sistema MES (Manufacturing Execution System, que monitora o chão de fábrica), assegurando um alto desempenho de dosagem de carga. Esse sistema projeta com precisão o resultado da carga de acordo com os fatores definidos pelo usuário, como taxa máxima de têmpera, qualidade ou prioridade de pedidos. A solução atinge uma taxa máxima de carregamento de até 80%, representando uma melhoria significativa em relação aos métodos tradicionais de programação manual de fornos, além de aumentar substancialmente a eficiência geral da produção.
A IA, portanto, garante: - Mais estabilidade de produção (uniformidade térmica, controle mais preciso do processo térmico e de pressão etc.)
- Menos desperdício (redução de anisotropia, menos defeitos ópticos, identificação automática de defeitos invisíveis ao olho humano etc.)
- Mais produtividade por operador
A pesquisa para IA
Outra pergunta válida a ser feita é por meio de que processo as fabricantes de equipamentos chegam a soluções envolvendo IA. “Nossas equipes de desenvolvimento estão constantemente avaliando as possibilidades de uso da tecnologia, e as implementamos onde faz sentido”, comenta Mari Lehtinen, responsável pelo setor de Comunicação e Marketing da Glaston.
Para Moreno Magon, da MM4Glass, o investimento contínuo em pesquisa e desenvolvimento representa uma parte significativa da estratégia da empresa finlandesa. Tais iniciativas incluem:
- Montagem de centros de pesquisa tecnológica na Europa;
- Cooperação com universidades e centros de inovação;
- Criação de equipes dedicadas para engenharia de software e ciência de dados;
- Desenvolvimento de programas de digitalização industrial e Indústria 4.0.
Além disso, a empresa trabalha em parceria com clientes e parceiros industriais para testar novas tecnologias em ambientes reais de produção.
Afinal, a IA veio para ficar?
Com as fábricas cada vez mais conectadas e inteligentes, fica difícil pensar a produção sem uma ferramenta tão relevante e eficaz como a IA. “Essa é uma tendência clara para se obter ganho de produtividade, redução de custos e, consequentemente, preços mais competitivos. Hoje, com a falta de mão de obra qualificada, as empresas buscam por automatização nos processos produtivos – e os fabricantes de equipamentos estão agregando IA em seus maquinários para que tenham melhores desempenhos”, analisa Ricardo Costa, da GlassParts.
Para Jones Hahn, da NEX, a IA tem muito ainda para avançar – e o setor vidreiro, a aprender com ela: “A única certeza que temos é de que a fábrica do amanhã já está sendo desenhada por IA. Nós estamos abertos a confiar nela?”.
Mais do que apenas máquinas, a tendência é oferecer ecossistemas completos de produção inteligente, nos quais equipamentos, dados e operadores trabalhem de forma integrada”, considera Moreno Magon, da MM4Glass. “Nesse contexto, continuamos comprometidos em desenvolver tecnologias que ajudem os clientes a produzir vidro com mais qualidade, eficiência e sustentabilidade. Acreditamos que o futuro do processamento será cada vez mais digital.”
Softwares vidreiros também se beneficiam da IA
As desenvolvedoras de softwares para nosso setor não poderiam deixar a IA de lado na hora de produzir suas soluções. Para Alexandre Gomes, gerente de Operações da Softsystem, ela auxilia especialmente no apoio à tomada de decisões, tornando a gestão e o atendimento mais rápidos. Por isso, a empresa realiza pesquisa para desenvolvimento constante com o objetivo de avaliar possibilidades que tragam ganhos reais de produtividade para o segmento. “Atualmente, utilizamos IA nos sistemas Pegasus (ERP para gestão e planejamento da produção) e e-Vidraceiro (portal e-commerce B2B para vidraçarias). A IA é integrada a eles por meio de modelos de análise de dados e automação inteligentes, as quais interpretam informações geradas nos próprios softwares e ajudam a otimizar os processos dos usuários.”
Este texto foi publicado originalmente na edição nº 639, de março de 2026, na revista O Vidroplano.
Foto de abertura: panuwat/stock.adobe.com








