7199 (Topo)

Mercado Livre de Energia gera prejuízos financeiros a processadoras

Instabilidade das comercializadoras expõe indústrias vidreiras a prejuízos financeiros e reforça a importância da gestão especializada e de contratos bem-estruturados
Por Redação Abravidro
Mercadoreportagens
Seu navegador não suporta a funcionalidade de áudio. Use um navegador mais recente para ouvir esta notícia.
Mercado Livre de Energia gera prejuízos financeiros a processadoras

O Mercado Livre de Energia tornou-se uma alternativa estratégica para indústrias eletrointensivas, como as processadoras de vidro, ao per-
mitir maior autonomia na gestão dos custos com eletricidade. A relevância desse modelo é expressiva: segundo reportagem da Folha de S.Paulo do começo de julho, o segmento, impulsionado pela expansão das comercializadoras de energia, já responde por mais de 40% de todo o consumo de eletricidade do País.

No entanto, a recente crise enfrentada por essas comercializadoras acendeu um alerta para esse setor. Marcado por volatilidade, alta dos preços e uma onda de pedidos de recuperação judicial, esse mercado exige uma atenção cada vez maior à gestão dos contratos e à escolha dos
fornecedores.

Crise acende alerta
O cenário se agravou após problemas financeiros atingirem grandes comercializadoras de energia, gerando preocupação com um possível efeito cascata no setor. Essas empresas enfrentam uma crise financeira sem precedentes, com dívidas e processos de recuperação judicial e extrajudicial que já ultrapassam R$ 6 bilhões, comprometendo pelo menos onze companhias do mercado de energia.

Apenas entre abril e maio deste ano, quatro grandes empresas entraram em grave crise financeira. De acordo com levantamento da Folha de S.Paulo, a situação das principais companhias afetadas é a seguinte:

  • 2W Ecobank: R$ 2,39 bilhões em dívidas (em recuperação judicial);
  • Tradener: R$ 1,7 bilhão em dívidas;
  • Electra: passivo próximo de R$ 1,3 bilhão (com pedido de proteção judicial);
  • Gold: mais de R$ 1 bilhão em dívidas (em recuperação extrajudicial).

Especialistas atribuem a instabilidade à alta volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), referência do mercado de curto prazo, somada ao descompasso entre oferta e demanda de energia.

Segundo Mariana Amim, diretora de Assuntos Técnicos e Regulatórios da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (Anace), alterações na precificação da energia, o excesso de oferta e as dificuldades de crédito provocaram uma crise de liquidez entre as comercializadoras: “O modelo atual dá sinais de esgotamento e exige uma revisão da forma como a energia é contratada, incluindo mudanças na formação dos preços, na distribuição dos riscos entre os agentes do setor e no fortalecimento da gestão e da governança”.

O cenário também foi agravado por fatores climáticos e restrições técnicas. Entre 2023 e 2025, eventos climáticos reduziram a oferta de energia hidrelétrica, de menor custo, enquanto cortes na geração renovável – prática conhecida como curtailment – ampliaram a pressão sobre o setor.

O impacto na prática
A processadora paranaense Cristal Sete sentiu os efeitos da crise após contratar a Electra Energy, que entrou em recuperação judicial e deixou de entregar a energia contratada. “Gastamos duas vezes, porque tive de pagar a energia que a Electra não nos forneceu à Enel e também correr no mercado de curto prazo para comprar a energia de que necessitamos”, conta seu diretor Marcus Aurelius de Andrade Pezotti.

Como o mercado enfrentava escassez e preços elevados, o impacto nos custos do insumo foi significativo. A empresa ainda enfrentou dificuldades jurídicas, pois, segundo o diretor, a Justiça não permitiu o cancelamento imediato do contrato. “Isso foi até pior para nós, porque continuamos atrelados a uma fornecedora que não oferecia nenhuma previsibilidade de entrega de energia, e eu poderia continuar correndo o risco de pagar em duplicidade”, lamenta Pezotti.

Situação semelhante foi vivida pela Guaporé Vidros, de Porto Velho, que também foi surpreendida quando a comercializadora com a qual mantinha contrato entrou em recuperação judicial. Segundo Rodolfo Garcia Pereira, diretor da empresa, o principal desafio foi garantir a continuidade do fornecimento para evitar a paralisação da produção.
Diante da urgência, a processadora precisou buscar alternativas no mercado em um prazo muito curto, o que reduziu seu poder de negociação e elevou diretamente os custos com energia. “Houve um desgaste operacional decorrente da necessidade de reorganizar todo o processo de contratação”, comenta Pereira. Como a relação contratual com a comercializadora ainda permanece em vigor, a Guaporé prefere manter sigilo sobre aspectos específicos do caso.

Continue a leitura após a publicidade
Panorama (meio da notícia)

Faliu, e agora? Falta luz na fábrica?
Segundo Mariana Amim, da Anace, caso a comercializadora deixe de cumprir suas obrigações, o fornecimento físico de energia não é interrompido. O problema ocorre apenas no aspecto financeiro: o consumidor fica exposto aos preços do mercado de curto prazo até regularizar sua contratação. Isso porque a distribuição é realizada por meio do Sistema Interligado Nacional (SIN), coordenado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o que garante o fornecimento contínuo de energia à indústria.

Na prática, a empresa perde a proteção do contrato e pode ser obrigada a adquirir energia pelos preços vigentes no mercado de curto prazo, muitas vezes superiores aos originalmente negociados, elevando significativamente seus custos.

Como reduzir os riscos
Diante desse cenário, especialistas recomendam uma postura preventiva. Mariana Amim orienta que as empresas avaliem cuidadosamente a saúde financeira das comercializadoras, revisem os contratos antes da assinatura e cumpram rigorosamente as obrigações operacionais, evitando atrasos que possam servir de justificativa para rescisões.

Segundo reportagem do Valor Econômico, entidades como a Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel) e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) também orientam que as indústrias realizem análises econômicas e de viabilidade antes de ingressar no Mercado Livre de Energia, observando alguns requisitos essenciais:

  • Limite de demanda: consumidores com demanda contratada superior a 500 kW podem migrar diretamente, tornando-se agentes da CCEE, ou optar pela representação de um comercializador varejista. Para cargas inferiores a 500 kW, a migração deve ocorrer obrigatoriamente por meio de um agente varejista ou da comunhão de cargas;
  • Aviso prévio: a distribuidora local deve ser comunicada sobre a intenção de encerramento do contrato com antecedência mínima de 180 dias em relação à data da migração;
  • Faturamento: após a aprovação da modelagem e o início das operações no mercado livre, o consumidor passa a receber duas cobranças: uma referente à compra de energia, emitida pelo fornecedor, e outra pelo uso da rede de distribuição. O Valor Econômico ressalta ainda que é fundamental estar em dia com todas as obrigações no mercado regulado antes da migração.

Para Pezotti, a principal lição deixada pela experiência da Cristal Sete foi a importância de contar com uma gestora especializada. “Não adianta querer fazer por conta própria. É preciso contar com profissionais experientes, que acompanhem o mercado e ajudem na tomada de decisões”, aconselha.

Na mesma linha, Rodolfo Pereira, da Guaporé Vidros, alerta que os consumidores não devem considerar apenas o preço da energia na hora de escolher uma comercializadora. “Entendemos que as empresas consumidoras devem avaliar a solidez financeira da comercializadora, as garantias contratuais e os mecanismos de mitigação de riscos”, afirma.

Segundo o executivo, episódios como esse reforçam a necessidade de ampliar a segurança jurídica e operacional do setor, já que a indústria de transformação depende do fornecimento contínuo de energia e sua interrupção “acaba gerando impactos relevantes na competitividade das empresas”.

Como reduzir os riscos no Mercado Livre de Energia
● Conte com uma gestora especializada: uma consultoria experiente acompanha o mercado, monitora riscos e auxilia na tomada de decisões, reduzindo a exposição da empresa a problemas com comercializadoras.
● Revise os contratos com lupa: com o aumento de comercializadoras enfrentando problemas de liquidez ou em recuperação judicial, redobre a cautela nas negociações. Antes de fechar negócio, analise o histórico, a solidez financeira e a capacidade de cumprir os contratos.
● Cumpra as obrigações: leia atentamente as cláusulas, busque equilíbrio contratual e mantenha em dia prazos, garantias e documentação para evitar rescisões e prejuízos.

Este texto foi publicado originalmente na edição nº 643, de julho de 2026, na revista O Vidroplano

Fotos: vencav/stock.adobe.com

Publicidade
Canal Abravidro Whats (Rodapé)