O vidro laminado alia segurança, estética e desempenho. Mas, por trás da transparência e da aparência impecável, existe um conjunto que precisa funcionar em perfeita sintonia. Quando algo dá errado, seja no processo de produção ou na instalação desse material, dois problemas costumam se destacar: trincas e delaminação. Evitá-las depende de uma série de cuidados que começam muito antes de o vidro chegar à obra.
Problemas diferentes
Segundo Douglas Alves, representante técnico de interlayers para a América Latina e líder de laboratório da Eastman, essas duas patologias são bem-diferentes uma da outra. “Trincas e delaminações são defeitos distintos e, com frequência, não correlacionados entre si. As trincas estão associadas a pontos de fragilidade preexistentes no vidro, como lascas de borda (conhecidas como borboletas). Parâmetros de processo inadequados também podem originar trincas em vidros laminados”,
explica.
O acabamento das bordas também merece atenção. Segundo o departamento técnico da fabricante espanhola Evalam, marca do Grupo Pujol, bordas malpolidas, microfissuras e outros defeitos de usinagem
criam pontos de fragilidade que podem comprometer a resistência do vidro e favorecer a propagação de trincas.
Já a delaminação ocorre quando o vidro perde aderência com o interlayer – a camada que une as chapas. “No processamento, a delaminação pode ocorrer por deficiências no ciclo de laminação, como
pressão ou temperatura inadequadas no autoclave, controle incorreto da umidade residual do interlayer antes da montagem ou pela contaminação da superfície do vidro com óleos, poeira ou resíduos de lavagem”, aponta Marcos Aceti, gerente-comercial e técnico da Kuraray no Brasil. “Já na instalação ou após ela, o problema é frequentemente causado pelo contato direto do interlayer com agentes químicos incompatíveis, como selantes, silicones de cura ácida, solventes e plastificantes de guarnições de EPDM (borracha sintética), ou mesmo pelo acúmulo contínuo de umidade na borda do vidro, que enfraquece a adesão ao longo do tempo.”
Prevenir é cuidar do conjunto
De acordo com o engenheiro Regis Bing Reis, diretor da General Glasses, representante no Brasil da fabricante de PVBs chinesa Decent, evitar trincas e delaminações em nosso material começa pela correta especificação do laminado – e é uma tarefa que deve ser mantida em todas as etapas. Segundo ele, durante a fabricação, é fundamental garantir:
- Qualidade e acabamento das bordas do vidro;
- Limpeza das superfícies;
- Correto armazenamento e manuseio do interlayer;
- Controle dos parâmetros de pré-laminação e autoclave;
- Evitar a presença de umidade, contaminações e ar aprisionado entre as
camadas.
Já na instalação das peças, devem ser evitados: - Esforços excessivos sobre o vidro;
- Danos nas bordas;
- Calçamentos inadequados;
- Situações que permitam o acúmulo de água.
Também é fundamental verificar a compatibilidade entre interlayer, selantes, gaxetas, adesivos e demais materiais que possam entrar em contato com a borda do laminado. “Além disso, a escolha do interlayer deve considerar a aplicação final. Existem diferentes formulações de PVB e outros tipos de interlayer, com características distintas de adesão, rigidez e resistência às condições ambientais”, completa Regis.
Outro ponto de atenção são os vidros temperados ou termoendurecidos. O tratamento térmico pode provocar distorções e empenamentos que, quando somados nas duas ou mais chapas, interferem no comportamento do laminado. “No caso de laminados compostos por vidros tratados termicamente – temperados ou termoendurecidos –, o controle de distorções localizadas e de empenamento é essencial para prevenir a delaminação e outros defeitos de borda”, aponta Douglas Alves, da Eastman. “Mesmo com controle adequado, recomenda-se a utilização de interlayer com maior espessura (geralmente, 1,52 mm), a fim de compensar as distorções inerentes ao tratamento térmico do vidro e minimizar a probabilidade de ocorrência de delaminação.”

A escolha faz a diferença
O interlayer tem papel central no desempenho do laminado. Além de unir as chapas, o material influencia a segurança, a resistência e a durabilidade do conjunto em diferentes condições de uso. Para Marcos
Aceti, da Kuraray, “o interlayer é a alma do vidro laminado e desempenha papel central tanto na prevenção como na mitigação desses problemas”. Isso ocorre por diferentes características, entre elas:
- Poder de adesão e resistência à umidade: interlayers de alta tecnologia oferecem níveis de adesão química ao vidro muito mais estáveis. A formulado polímero determina sua capacidade de resistir à penetração de umidade e ao ataque de reagentes químicos externos;
- Acomodação de tensões: um interlayer bem-dimensionado auxilia na redistribuição mecânica de cargas térmicas e de impacto, reduzindo o risco de quebras induzidas por tensões concentradas.
Aceti acrescenta que, enquanto o PVB padrão exige cuidados rigorosos contra umidade e certos selantes, interlayers estruturais, como o SentryGlas (feito de ionômero), oferecem maior estabilidade de borda e resistência para exposição à umidade, mantendo suas propriedades mecânicas mesmo em ambientes agressivos. A Evalam aponta o desempenho dos filmes de EVA em ambientes úmidos, ressaltando características como estabilidade diante de temperaturas elevadas e adesão estrutural. “O EVA, em geral, é mais resistente do que o PVB à ação da umidade. Não é um produto higroscópico e, portanto, não absorve a umidade do ambiente. No entanto, ainda é necessário avaliar a
qualidade de cada EVA disponível no mercado”, explica o departamento técnico da fabricante.
Douglas Alves, contudo, alerta: “O nível de adesão, por si só, não garante a ausência de delaminação. Além disso, a formulação deve conter componentes responsáveis por estabilizar a adesão na região da borda, onde geralmente há maior incidência de umidade”.

O desafio das bordas
O que já ficou claro nesta reportagem é que, se existe uma região que merece atenção especial nos laminados, é a borda dos conjuntos. Em aplicações com cantos expostos, como guarda-corpos, coberturas e marquises, ela fica mais sujeita à ação da umidade e de outros agentes externos. A norma técnica dos laminados, a ABNT NBR 14697, revisada
em 2023, estabelece diretrizes para essas situações:
- Especificação do interlayer: o tipo e a espessura devem ser selecionados
de acordo com a aplicação, considerando os tensionamentos naturais dos vidros temperados ou termoendurecidos. A norma recomenda consultar o fabricante do interlayer para obter orientações; - Controle dos esforços mecânicos: torque excessivo nos dispositivos de fixação ou uso inadequado de calços podem deformar o vidro e comprometer a adesão do interlayer. O projetista deve definir o torque adequado, enquanto os calços devem atender os requisitos da ABNT NBR 7199 — Aplicações de vidros na construção civil – Requisitos;
- Vedação e drenagem: em laminados instalados e encaixilhados, deve-se evitar o acúmulo de água nas bordas, garantindo a integridade da vedação e a presença de drenos no caixilho;
- Compatibilidade entre materiais: fabricantes do laminado, do interlayer
e dos materiais utilizados na instalação devem ser consultados para verificar a compatibilidade dos produtos e possíveis efeitos sobre o conjunto.
“Em síntese, a durabilidade de um laminado com borda exposta depende da combinação entre um interlayer adequado, um processo de laminação controlado e uma instalação corretamente especificada e executada”, firma Regis Bing Reis, da General Glasses.

Boas práticas na instalação e na limpeza
A correta especificação, instalação e limpeza das bordas expostas merece atenção. Confira os requisitos dessas tarefas segundo a ABNT NBR 14697:
- Limpeza: não utilizar álcool ou produtos químicos para a limpeza das bordas expostas do laminado;
- Na instalação: quando houver uso de selantes, adesivos ou outros materiais em contato com o vidro, deve-se verificar previamente sua compatibilidade com o laminado e o interlayer;
- Colagem com silicone estrutural ou fita dupla-face: caso seja necessária a utilização de produtos químicos para preparar a superfície de colagem,
o contato com as bordas precisa ser evitado. A aplicação deve ficar restrita à área da superfície do vidro destinada à colagem; - Atenção à umidade: a exposição constante à água ou à umidade, associada a tensionamentos mecânicos, pode favorecer o surgimento de defeitos nas bordas e comprometer o desempenho do laminado.
No fim, evitar trincas e delaminação não se trata de corrigir um problema depois que ele aparece – é, principalmente, antecipar riscos. Do projeto à manutenção, cada escolha ajuda a determinar quanto tempo o laminado permanecerá seguro, funcional e visualmente impecável.

Alguns interlayers disponíveis no mercado nacional
PVB convencional (Decent)
● Excelente isolamento acústico e segurança física em vidros totalmente encaixilhados.
PVB estrutural (Eastman DG41XC)
● Desenvolvido com rigidez e estabilidade de borda superiores;
● Muito resistente em contato direto com a umidade.
EVA de alta performance (Evalam)
● Material não higroscópico, não absorve umidade do ar circundante;
● Indicado para climas litorâneos e alta exposição à água Ionômero (SentryGlas, da Kuraray)
● Película estrutural com altíssima rigidez mecânica
● É imune à penetração de água e ao amarelamento por intempéries.
Imagem de abertura: General Glasses











