Os temperados são os vidros processados mais consumidos do País, correspondendo a 58,8% da participação por produto na indústria de transformação (considerando vidros não automotivos). Os laminados estão na 3ª colocação da lista, com 14,9%. Juntos, portanto, equivalem a mais de 70% do mercado, de acordo com os dados do Panorama Abravidro 2026, referentes ao ano passado.
Dada a importância desses dois materiais para o segmento, O Vidroplano analisou sua aplicação conjunta: os laminados temperados – ou seja, laminados feitos de peças temperadas. Qual o potencial de mercado para essa solução de alto valor agregado? Em que aplicações deve ser usada? Quais os desafios durante seu processamento? Confira isso, e mais, nas páginas a seguir.
Mercado em amadurecimento
As usinas e processadoras consultadas para esta reportagem concordam que o mercado para os laminados temperados é promissor e vive um momento de amadurecimento, graças à valorização cada vez maior da segurança nas edificações. “Esse tipo de vidro reúne duas tecnologias complementares: a resistência mecânica do temperado, regulamentada pela norma ABNT NBR 14698, e a retenção de fragmentos proporcionada pela laminação, prevista na ABNT NBR 14697”, comenta o coordenador de Qualidade e Lean da GlassecViracon, Renato Santana. “Essa combinação resulta em um produto de alto valor agregado, capaz de oferecer segurança contra impacto, maior desempenho estrutural, redução de riscos aos usuários e melhor percepção de qualidade para o mercado.”
Fica claro, então, que a utilização da solução envolve um caráter técnico. “É focada em demandas onde a NBR 7199 exige o uso adequado deste tipo de beneficiamento combinado”, analisa o gerente de Marketing e Produtos da AGC, Thiago Malvezzi. Ele também defende a disseminação de conhecimento sobre as normas e a especificação correta dos vidros: “Garantindo que as soluções de vidro estejam dentro das normas técnicas de segurança, e levando mais conhecimento para nosso mercado, tenho certeza que teremos maior espaço para este produto”.
A gerente de Desenvolvimento de Mercado de Arquitetura da Guardian, Betânia Isquierdo Danelon, concorda que um vetor importante do crescimento desse nicho é a evolução normativa: “A atualização da ABNT NBR 7199, a principal norma do setor, reforçou a obrigatoriedade do uso de vidros de segurança em diversas aplicações. Esse movimento regulatório, somado ao movimento de conscientização de arquitetos, projetistas e dos consumidores finais sobre segurança e desempenho, tende a ampliar a demanda por soluções laminadas temperadas.”
A construção civil moderna também é um fator relevante ao se analisar as oportunidades para o produto. “Observamos uma arquitetura cada vez mais minimalista, com grandes áreas envidraçadas, máxima transparência e valorização da integração entre os ambientes”, aponta o gerente de Desenvolvimento de Mercado da Cebrace, Jonas Sales. “Nesse contexto, o laminado temperado ganha espaço por possibilitar projetos mais ousados e sofisticados, permitindo aplicações com grandes dimensões, elementos estruturais mais esbeltos e maior sensação de leveza.” Quando a solução é combinada com vidro extra clear, por exemplo, é oferecida uma transparência ainda superior, que potencializa o conceito de arquitetura clean, na qual o vidro deixa de ser um elemento construtivo e passa a ser protagonista do design.
Para a CEO da PKO Vidros, Myrian Ang, as características da arquitetura contemporânea (grandes vãos, menos perfis de sustentação, maior transparência) exigem um produto com elevado desempenho mecânico. “Esses vidros garantem proteção contra raios UV, melhor desempenho acústico e maior rigidez estrutural, quando comparados com um laminado convencional, feito de float, com a mesma espessura.” A evolução dos interlayers estruturais também impulsiona o desenvolvimento do mercado. “Eles possibilitam a redução da espessura do vidro em determinadas aplicações, permitembordas expostas e ampliam as possibilidades para projetos estruturais de alto padrão arquitetônico”, explica Myrian.
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Tipos de aplicação
Em que situações os laminados temperados podem ser aplicados? “São utilizados sempre que se necessite de um vidro com mais resistência do que o vidro comum e que também não possa ter o devassamento do vão em caso de quebra”, afirma Malvezzi, da AGC. Da mesma forma, são indicados para quando o vidro precisa ser laminado, e ao mesmo tempo furado ou recortado, obrigando-o a passar pelo processo de têmpera antes da laminação.
A lista de aplicações é grande:
- Fachadas estruturais;
- Guarda-corpos (com torres, botões ou fixações pontuais e também embutidos em perfis, conhecidos como sistemas de “vista infinita”);
- Pisos, degraus e escadas de vidro;
- Muros e vitrines;
- Coberturas, marquises e claraboias;
- Aplicações especiais sujeitas a maiores esforços mecânicos.
Vale destacar que, para aplicações horizontais ou inclinadas, como coberturas e marquises, a especificação deve ser analisada com atenção. “Nesses casos, o laminado de vidro termoendurecido, ao invés de temperado, muitas vezes se mostra mais adequado”, comenta Renato Santana, da GlassecViracon. “Quando ocorre a quebra das duas chapas de um laminado temperado, pode acontecer o chamado ‘efeito tapete’, com perda da capacidade residual de sustentação do conjunto. Já o laminado de termoendurecido tende a manter melhor sua integridade após a ruptura, reduzindo o risco de colapso.”
Atenção às estruturas autoportantes
“A utilização dos laminados temperados é especialmente relevante em aplicações autoportantes, instalações em que as peças de vidro não ficam integralmente estruturadas por caixilhos convencionais e dependem das próprias peças, ferragens e elementos de fixação para garantir resistência e estabilidade”, recomenda o gerente de Desenvolvimento de Mercado da Vivix, Luiz Barbosa.
Em sistemas autoportantes, dependendo da tipologia e do dimensionamento, indica-se a utilização de interlayer estrutural, que proporciona maior rigidez residual e melhor estabilidade após uma possível quebra. “Um interlayer convencional pode permitir deformação excessiva do laminado, reduzindo sua capacidade de permanecer como barreira de proteção”, alerta Barbosa.
Além disso, quando a opção for por interlayer convencional, a composição deve ser dimensionada com redundância: isso significa considerar que, se uma das lâminas perder resistência, as demais devem ter capacidade suficiente para manter o sistema íntegro e evitar a abertura do vão até a substituição do vidro. “Essa redundância pode exigir lâminas mais espessas, aumentando o peso, os esforços sobre as ferragens e as cargas transmitidas à estrutura. Por isso, em determinadas situações, o interlayer estrutural, embora tenha custo unitário superior, pode resultar em uma solução tecnicamente mais eficiente e viável para o conjunto”, alerta o gerente da Vivix.
Fomentando a solução
Já que o mercado para laminados temperados é promissor, como as fontes desta matéria apontaram, como fomentar um maior uso da solução para aplicações em que ela se mostra tecnicamente viável? “Um dos principais caminhos é a especificação correta do produto ainda na fase de projeto.
Arquitetos, engenheiros, construtoras e fabricantes de esquadrias precisam conhecer as possibilidades técnicas dessa composição”, afirma o diretor da Cyberglass, Rodrigo Seixas Guerrero. “É importante ainda investir em informação e capacitação do mercado. Muitas vezes, uma solução superior deixa de ser especificada simplesmente porque o projetista não conhece suas possibilidades ou porque existe uma percepção de que seu custo será muito elevado.”
Jonas Sales, da Cebrace, também aponta a questão do custo como algo a ser superado pelos especificadores e pelo setor da construção como um todo: “Esse grande potencial de expansão existe à medida que o mercado compreende que o vidro não deve ser especificado apenas pelo preço inicial, mas pelo valor que entrega ao empreendimento. Afinal, esse tipo de vidro não apenas eleva o nível de segurança, mas amplia as possibilidades de criação, agrega valor ao imóvel e diferencia os projetos sob os aspectos de design, desempenho e durabilidade”.
Outro ponto a ser levado em conta, segundo Renato Santana, da GlassecViracon, são as certificações de qualidade e rastreabilidade dos processos produtivos. “Além disso, a adoção de processos complementares, como o Heat Soak Test, contribui significativamente para elevar a confiabilidade do produto. Esse ensaio submete o vidro temperado a um ciclo térmico controlado. O objetivo é reduzir o risco de quebras espontâneas associadas a inclusões de sulfeto de níquel. Isso aumenta a segurança e a previsibilidade de desempenho, especialmente em fachadas, guarda-corpos e aplicações de maior responsabilidade técnica”, explica. Portanto, quanto mais o mercado compreender que segurança é um atributo de valor – e não apenas um requisito obrigatório –, maior será a adoção do laminado temperado.
Betânia Isquierdo, da Guardian, indica alguns tópicos importantes para a cadeia vidreira trabalhar com o intuito de divulgar as possibilidades da solução:
- Aderência às normas: incorporar as exigências normativas amplia naturalmente o uso de vidros de segurança;
- Especificação e educação técnica: capacitar arquitetos, engenheiros e projetistas para especificar e dimensionar corretamente o laminado temperado nas aplicações em que a combinação de resistência e segurança é necessária, evitando tanto o subdimensionamento como a substituição por soluções menos adequadas;
- Suporte técnico ao projeto: oferecer apoio de engenharia desde a concepção, incluindo o cálculo estrutural do vidro e a definição dos interlayers adequados a cada aplicação, proporcionando segurança ao especificador e viabilizando projetos mais ousados;
- Agregação de desempenho: combinar o laminado temperado com vidros de controle solar, interlayers com propriedades de atenuação acústica e proteção contra raios UV amplia a proposta de valor da solução e contribui para o atendimento de metas de eficiência energética e conforto;
- Conscientização sobre a segurança ao longo da vida útil: comunicar os benefícios relacionados à segurança, durabilidade e desempenho ao longo de toda a vida útil da aplicação ajuda o mercado a enxergar a solução como investimento, e não somente como despesa.
E tudo isso passa por um assunto imprescindível: a busca pela especificação correta, que segue os requisitos normativos. “O crescimento desse mercado não deve ocorrer apenas pelo aumento do consumo. Quanto maior for o domínio técnico da cadeia sobre resistência, segurança pós-quebra e desempenho do sistema completo, maior será a utilização adequada do laminado temperado”, analisa Luiz Barbosa, da Vivix.

com SentryGlas, dimensionados para suportar a pressão da água e as cargas de uso com segurança, além de oferecer
estanqueidade à estrutura (foto: PKO Vidros)
Desafios no processamento
O beneficiamento do vidro temperado laminado exige um nível de controle significativamente superior ao de outros produtos – afinal, combina dois processos com elevado controle de qualidade: a têmpera e a laminação. “O trabalho requer o conhecimento das técnicas e métodos apropriados para cada uma das etapas do beneficiamento, do plano de corte até o produto acabado, bem como as boas práticas de manuseio e montagem dos pacotes laminados e de todos os parâmetros técnicos na laminação”, explica o instrutor técnico da Abravidro,
Cláudio Lúcio. Isso diminui drasticamente os efeitos danosos que podem comprometer a qualidade do vidro, reduzindo os custos operacionais, aumentando a produtividade e garantindo o atendimento às normas técnicas. “Como o temperado não admite cortes ou usinagens posteriores, todas as dimensões e acabamentos precisam estar definidos previamente, o que reforça a importância de um parceiro processador com experiência consolidada nesse tipo de produto capaz de evitar retrabalho”, aponta Myrian Ang, da PKO Vidros. Rodrigo Guerrero, da Cyberglass, comenta que o vidro precisa sair da têmpera com características adequadas para posteriormente ser laminado: “O controle dimensional, a qualidade das bordas, a planicidade, a limpeza das superfícies e a compatibilidade entre as peças são fundamentais”. Variações ópticas ou dimensionais podem dificultar a montagem e comprometer tanto a estética como o desempenho do produto final.
“Não devemos tratar um laminado temperado simplesmente como um laminado convencional. O sistema como um todo – vidro, esquadria, ferragens, fixações e instalação – precisa ser projetado considerando as características específicas desse produto, reforça Guerrero. “Na laminação, o processo também exige controle rigoroso de temperatura, pressão, vácuo, umidade e condições do ambiente.” O desvio de planicidade e das ondulações entre as peças que formam o pacote laminado deve estar abaixo de 10% da espessura total da soma dos interlayers. “Um desvio maior que essa tolerância nas bordas, e também no centro das peças, tem o potencial de desenvolver delaminação ou bolhas, comprometimento estético severo e possível fragilização estrutural localizada”, alerta Cláudio Lúcio.
Existe ainda o desafio logístico e de manuseio, pois estamos falando de produtos com maior peso e maior valor agregado: qualquer problema durante as etapas de processamento, transporte ou instalação pode representar um custo significativo à beneficiadora.
Por isso, fabricantes de excelência investem continuamente em equipamentos de inspeção, sistemas de rastreabilidade, certificações de qualidade e treinamento técnico das equipes. “São esses diferenciais que garantem a longevidade do produto e distinguem um vidro laminado temperado das soluções convencionais disponíveis no mercado”, afirma Renato Santana, da GlassecViracon.
Como explica Myrian Ang, faz-se necessária uma estrutura completa de controle de qualidade: “Nós temos, inclusive, um laboratório próprio para a realização dos ensaios previstos em norma. Esse acompanhamento garante que cada produto entregue atenda os requisitos técnicos e ofereça o desempenho esperado”.











