Redução da jornada de trabalho mobiliza indústria e reacende debate sobre escalas

Com propostas em discussão no Congresso, empresas avaliam impactos nos custos e a necessidade de reorganizar o trabalho no chão de fábrica
Por Redação Abravidro
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Redução da jornada de trabalho mobiliza indústria e reacende debate sobre escalas

Como abordado na edição de fevereiro de O Vidroplano, a atualização da NR-1 passou a incluir a gestão de riscos psicossociais nas empresas.
Com isso, a saúde mental e o bem-estar dos trabalhadores deixam de ser temas secundários e assumem um papel central nas estratégias corporativas modernas.

Paralelamente, outro debate ganhou força pelo País: o fim da escala 6×1. Tramitando no Congresso Nacional, propostas que reduzem a carga semanal de trabalho reacendem uma discussão histórica sobre produtividade, competitividade e qualidade de vida – tema que mobiliza trabalhadores, especialistas e o setor produtivo.

Dada a importância da questão, esta reportagem de O Vidroplano mostra quais são os argumentos a favor e contra a mudança. O objetivo é entender seu impacto na indústria nacional caso realmente venha a ocorrer.

O que está na mesa
No debate sobre o fim da escala 6×1, dois conceitos diferentes vêm sendo discutidos no Congresso Nacional: jornada de trabalho e escala de trabalho. A jornada refere-se ao total de horas trabalhadas na semana, enquanto a escala diz respeito à forma como essas horas são distribuídas entre os dias de trabalho e descanso.

Atualmente, a legislação brasileira permite jornadas de até 44 horas semanais, limitadas a oito horas diárias e geralmente distribuídas em seis dias de trabalho e um dia de descanso – conforme o Art. 7º, XIII, da Constituição Federal. Esse modelo, conhecido como escala 6×1, é amplamente utilizado em setores como comércio, serviços e parte da indústria.

Para alterar esse cenário, tramitam no Congresso quatro propostas legislativas.Três delas são Propostas de Emenda à Constituição (PECs). A outra é um Projeto de Lei (PL). Segundo o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, duas dessas propostas são consideradas as
principais e lideram o debate no plenário:

  • PEC 8/2025, de autoria da deputada Erika Hilton (PSol-SP): propõe reduzir a jornada máxima de 44 para 36 horas semanais, com possibilidade de adoção da semana de quatro dias de trabalho e três de descanso (modelo 4×3), sem redução salarial;
  • PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG): também prevê a redução da jornada para 36 horas semanais, mas com uma transição gradual ao longo de dez anos com o objetivo de reduzir impactos econômicos e permitir adaptação das empresas.

Além dessas duas PECs, outras propostas também são debatidas e podem influenciar o formato final das mudanças:

  • PL 67/2025, da deputada Daiana Santos (PCdoB-RS): estabelece a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas e garante ao menos dois dias de repouso remunerado por semana. A proposta prevê implementação gradual e é a alternativa com maior apoio do governo federal por adotar uma transição considerada moderada;
  • PEC 148/2015, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS): também propõe reduzir a jornada para 36 horas semanais, com diminuição progressiva da carga horária até atingir o novo limite.

O mapa global da jornada de trabalho
Quantidade de horas semanais trabalhadas em relação ao padrão internacional:

  • China: +4,2 horas
  • Colômbia: +4,1 horas
  • África do Sul: +1,7 hora
  • Rússia: +1,6 hora
  • Estados Unidos: +0,9 hora
  • Argentina: -0,1 hora
  • Brasil: -1,2 hora
  • França: -3,6 horas
Qualidade de vida e saúde mental ganham protagonismo no debate sobre o fim da escala 6×1 (foto: Freepik)

Os argumentos a favor da mudança
De acordo com Ivo Ary Meier Júnior, da Ciscato Advogados Associados, advogado especialista em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, defensores da mudança da jornada sustentam que a redução acarreta melhora na qualidade de vida do trabalhador, reduzindo estresse, doenças ocupacionais e fadiga. Isso também contribuiria para alinhar o Brasil a tendências internacionais, uma vez que diversos países vêm testando modelos de jornada reduzida ou a semana de quatro dias.

O Dossiê 6×1, estudo da economista Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), revela que mais de 76% das pessoas ocupadas no País trabalham mais de 40 horas semanais, e
21 milhões superam as 44 horas previstas também na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). O estudo aponta ainda que o Brasil registrou meio milhão de afastamentos por doenças psicossociais no emprego formal, decorrentes de condições desfavoráveis de trabalho, reforçando a necessidade de diminuir a sobrecarga. A redução da jornada para 36 horas teria o potencial de gerar até 4,5 milhões de novos empregos no Brasil e elevar a produtividade em cerca de 4%.

Trazendo mais luz à experiência internacional, o governo tem argumentado que a redução não é mero “luxo”, e sim investimento. De acordo com dados da Secretaria-Geral da Presidência, a Islândia registrou crescimento econômico de 5% e aumento de 1,5% na produtividade ao reduzir a jornada para 35 horas, enquanto, no Japão, a adoção da escala 4×3 pela Microsoft elevou a produtividade individual em 40%. Além disso, uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) concluiu que, nos grandes setores empregadores, como a indústria, o impacto no custo operacional de uma redução para 40 horas seria inferior a 1% – comparável a reajustes históricos do salário mínimo, os quais não geraram desemprego.

O impacto na construção civil
Para entender como a mudança afetaria a ponta da cadeia, um estudo da Ecconit Consultoria encomendado pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), conduzido pelo economista Robson Gonçalves, simulou os efeitos da redução da jornada para 40
ou 36 horas semanais.

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Na prática, as construtoras precisariam ampliar o quadro de funcionários em até 22,2%, o que elevaria o custo total das obras em até 20% e poderia atrasar as entregas de dois a quatro meses. Para manter a viabilidade dos projetos, o setor teria de alcançar um ganho de produtividade considerado irreal, de até 58,8%. O reflexo final atingiria o consumidor: com o repasse dos custos, os imóveis ficariam de 5,5% a 11% mais caros. Como consequência, estima-se que de 1,6 milhão a 3,3 milhões de famílias perderiam a renda mínima exigida para acessar financiamentos habitacionais, como os do programa Minha Casa, Minha Vida.

O presidente da Abrainc, Luiz Antônio França, defende que a ampliação do acesso à moradia passa por medidas macroeconômicas que reduzam custos e estimulem a produção, e não por pressões adicionais sobre o setor. “O que nós queremos é que o Brasil reduza o seu déficit, que a
taxa de juros caia e que haja mais incentivos para produzir. Assim, o trabalhador será mais bem remunerado e terá maior poder aquisitivo”, declarou durante um debate sobre o tema durante o CNN Talks – O Futuro da Jornada de Trabalho no Brasil, evento realizado pela CNN Brasil.

Os argumentos contra a mudança
Apesar dos benefícios sociais e da viabilidade a longo prazo, a transição gera grande apreensão na classe empresarial, especialmente na indústria de base e de transformação, como o setor vidreiro. Os fornos de vidro das usinas de base, por exemplo, operam a temperaturas altíssimas e não podem ser desligados aos finais de semana – isso exige turnos ininterruptos de revezamento. As processadoras também atuam em regimes especiais dependendo da demanda pelo produto.

O advogado Meier Júnior destaca que uma alteração legislativa no limite semanal poderia gerar uma necessidade de reestruturação completa das escalas, pois empresas que operam em regime contínuo talvez teriam de ampliar o número de equipes, reduzir horas por turno e reorganizar ciclos de trabalho. Segundo o especialista, a indústria já lida com modelos complexos, como 12×36, 4×2 e 6×2, e a mudança abrupta forçaria novas contratações e um rearranjo total das fábricas.

Esse receio é traduzido em números por diversas entidades de classe, as quais alertam para a perda de competitividade perante o Custo Brasil. Um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta que a redução para quarenta horas pode elevar em até R$ 267,2 bilhões por ano os custos com empregados formais, um acréscimo de até 7% na folha de pagamento. “Esses dados, combinados com as análises que estamos fazendo sobre o tema, mostram que o mais provável é que a produção seja reduzida e o custo unitário do trabalho aumente, trazendo pressão de custos e perda de competitividade das empresas nacionais”, aponta Ricardo Alban, presidente da entidade.

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) também ecoa o alerta, projetando que uma queda para 36 horas sem redução salarial poderia elevar a folha de pagamento desse setor em 25,1%, custando R$ 178,8 bilhões.

Indústria busca equilíbrio nas discussões do Congresso para diminuir os impactos no setor produtivo (foto: Freepik)

A opinião do setor vidreiro
Este mês a Abravidro fez um levantamento com seus associados para saber o posicionamento das empresas a respeito do tema. A pesquisa foi respondida de forma anônima e vale como termômetro da opinião do empresariado vidreiro. Foram 24 respostas, o equivalente a 15% do total
de associados da entidade. Dois dados interessantes:

  • 21% dos respondentes apontaram trabalhar no regime 6x;
  • 67% contam com somente um turno de produção.
    Algumas companhias apontaram algo relevante: apesar de atuar no regime 5×2, trabalham 44 horas semanais, o mesmo total de horas do 6×1 – esse período a mais é diluído ao longo da semana para garantir o descanso de dois dias aos colaboradores.
    Caso o projeto de proibição do 6×1 seja aprovado, várias empresas teriam de se adequar a um menor número de horas trabalhadas. A pergunta final do levantamento — “qual a sua visão sobre a escala 6×1?” — trouxe respostas variadas:
  • Algumas empresas consideram esse tipo de jornada importante para outros setores, mas irrelevante para o nosso;
  • Outras acreditam que proibir o 6×1 poderá levar ao aumento na inflação, pois isso deve gerar maiores custos na produção, os quais serão repassados ao valor final dos produtos;
  • Tem empresa que acha esse modelo excessivo, mas não abusivo, sendo importante a tentativa de modernizá-lo.
    Uma resposta em especial revela a complexidade do assunto. Para essa empresa, a escala 6×1 apresenta baixa eficiência operacional no sexto dia (sábado). Como nesse dia a jornada é reduzida, os custos operacionais de funcionamento (como transporte, energia e estrutura)
    tornam-se elevados em relação ao volume de produção gerado no período. Por outro lado, o sábado é estratégico para as áreas comercial e de expedição, pois muitos clientes aproveitam o final de semana para resolver questões pessoais e realizar compras, aumentando assim a demanda por atendimento e retirada de materiais.

Negociação e adaptação
O avanço rápido das PECs, impulsionado pelo apelo popular e pelo interesse político em ano eleitoral, fez com que o setor produtivo se mobilizasse. Em um ato chamado de “O contra-ataque do setor produtivo à PEC do 6×1”, mais de cem entidades – incluindo CNI, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) – assinaram e entregaram um manifesto ao Congresso Nacional. O documento reconhece que a discussão é legítima, mas defende quatro princípios fundamentais:

  • A preservação do emprego formal;
  • O foco prévio no aumento da produtividade;
  • A diferenciação do modelo por setor econômico;
  • A necessidade de um debate técnico aprofundado.

A Fiesp, inclusive, tem se posicionado firmemente sobre o tema. Baseada em um estudo da própria entidade, que projeta uma possível queda de 3,7% no Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro ano da mudança, a federação pede cautela. “Quando se trata da escala, as realidades variam muito de setor para setor. Em geral, ela está diretamente ligada à natureza das funções. A realidade da saúde é diferente da do transporte, da indústria e do comércio”, afirma o presidente da federação, Paulo Skaf.
Seja qual for o desfecho no Congresso, como a indústria do vidro poderá equilibrar o bem-estar dos colaboradores com o trabalho que não pode ser interrompido?

Para Ivo Ary Meier Júnior, a resposta está no diálogo: “A negociação coletiva continuará tendo papel central, pois a própria Constituição permite flexibilizações por acordo ou convenção coletiva em diversos regimes de jornada.” Conforme explica o advogado, mesmo com eventuais mudanças na legislação, é provável que coexistam diferentes modelos de jornada, especialmente em setores com funcionamento contínuo, uma vez que a organização do trabalho depende das características de cada atividade e das negociações entre empresas e trabalhadores.

Este texto foi publicado originalmente na edição nº 639, de março de 2026, na revista O Vidroplano.

Foto de abertura: Crédito: kucherav/ /stock.adobe.com

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