Representando hoje um dos mais importantes e sofisticados mercados para a aplicação de vidros arquitetônicos no Brasil, as fachadas-cortina são responsáveis por unir estética contemporânea, transparência e eficiência energética. Bem por isso, essas “peles de vidro” careciam de uma regulamentação nacional exclusiva. Esse cenário começa a mudar com o avanço de uma norma inédita, desenvolvida pela Comissão de Estudo de Esquadrias e Fachadas-cortina, do Comitê Brasileiro de Esquadrias, Componentes e Ferragens em Geral (ABNT/CB-248).
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A proposta busca preencher uma lacuna técnica histórica e, ao mesmo tempo, elevar o nível de segurança e desempenho desses sistemas, com impactos diretos em toda a cadeia vidreira. Até agora, a validação das fachadas-cortina dependia de adaptações: os ensaios laboratoriais seguem a ABNT NBR 10821-3 — Esquadrias para edificações – Parte 3: Esquadrias externas e internas – Métodos de ensaio, enquanto as avaliações utilizam como base a ABNT NBR 10821-2 — Esquadrias para edificações – Parte 2: Esquadrias externas – Requisitos e classificações, focada nas esquadrias convencionais.
O novo projeto utiliza como referência a rigorosa norma europeia EN 13830 – Curtain Walling – Product Standard.
“A ABNT NBR 10821 e suas partes tratam de esquadrias de todas as tipologias, materiais e dimensões. Porém, alguns pontos específicos sobre as fachadas-cortina não são mencionados — como os requisitos que levam em consideração o peso próprio da fachada sobre a estrutura e a proteção contra incêndio, entre outros. Portanto, vamos utilizar esse texto-base para escrever a parte 8 da ABNT NBR 10821”, afirma a engenheira Fabiola Rago Beltrame, coordenadora da comissão de estudo do CB-248 e diretora-geral do Instituto Beltrame da Qualidade, Pesquisa e Certificação (Ibelq).
O vidro em foco
Para o setor vidreiro, a nova norma traz diretrizes que impactam diretamente desde a especificação até o desempenho final dos sistemas envidraçados. O texto contempla critérios como resistência às pressões de vento, estanqueidade e desempenho térmico, acústico e lumínico. A norma também delimita o campo de aplicação, incluindo fachadas com inclinações de até ± 15 graus na vertical e excluindo soluções específicas, como telhados envidraçados.
Outro ponto sensível é a segurança contra incêndio, tema que ganha cada vez mais relevância diante das exigências dos corpos de Bombeiros. A interface entre os andares, por exemplo, deve considerar medidas como faixas corta-fogo para evitar a propagação das chamas. Para isso, o projeto contou com contribuições do Comitê Brasileiro de Segurança Contra Incêndio (CB-24).
Além disso, a norma organiza as tipologias mais utilizadas no mercado, como sistemas grid, stick, unitizados e spider (estes últimos fortemente dependentes de soluções de vidro estrutural), além de prever combinações com diferentes materiais.
Nesse contexto, o papel do vidro ganha ainda mais destaque. “A nova norma mudará para melhor a forma como o projetista e o fabricante de esquadrias devem especificar o vidro para garantir o desempenho do sistema como um todo, pois o atendimento às diretrizes da ABNT NBR 7199 — Aplicações de vidros na construção civil – Requisitos ganha maior relevância ao longo do texto”, afirma Fabiola.

Impactos para a cadeia
De acordo com a coordenadora da comissão de estudo, os impactos práticos com a publicação dessa norma são muitos para o setor das construtoras, incorporadoras, fabricantes de esquadrias e fornecedores de perfis, vidros e componentes. “Teremos regras claras para avaliação do desempenho de fachadas no Brasil, inclusive permitindo avaliação de detalhes mais específicos na certificação desses elementos de envelopamento das edificações.”
Para o setor vidreiro, isso significa um movimento claro de valorização das empresas que atuam em conformidade técnica, desde o processamento até a instalação. Ao mesmo tempo, produtos e soluções fora de padrão tendem a perder espaço, especialmente em obras de maior porte e complexidade.
O projeto de norma está em fase final de elaboração dentro da comissão de estudo e deve ser concluído ao longo de 2026. Após revisão e editoração pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), o texto seguirá para consulta nacional. A expectativa é de publicação em 2027.
Este texto foi publicado originalmente na edição nº 640, de abril de 2026, na revista O Vidroplano
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