A revista O Vidroplano conversou com as quatro usinas vidreiras de base que atuam no Brasil para saber como foram os negócios no ano passado e entender suas expectativas para o ano que começa.
A AGC classifica 2025 como positivo, mesmo com um início pessimista, marcado pela desaceleração da construção civil. O custo de energia e matérias-primas, assim como a escassez de mão de obra qualificada, foram algumas das dificuldades vistas no ano passado. Para 2026, a expectativa da usina é de “otimismo cauteloso”, com o desempenho do mercado fortemente atrelado ao desempenho da economia e a fatores internos.
Confira abaixo a entrevista exclusiva da empresa à nossa reportagem. As respostas são do presidente e diretor-geral de Vidros Arquitetônicos para a América do Sul, Isidoro Lopes Júnior, e do gerente-executivo Comercial e de Marketing da Divisão de Vidros Arquitetônicos para a América do Sul, Marcelo Botrel.
Qual a análise dos negócios em 2025?
“É certamente positivo, apesar de iniciarmos o ano com uma perspectiva mais pessimista, com desaceleração da construção civil e uma estabilidade de demanda provocada pela postergação de obras e reformas diante dos juros elevados. Os resultados são decorrentes de muito esforço e trabalho duro em todas as áreas da organização. Aprendemos muito durante o ano e fomos disciplinados em relação à segurança das pessoas, eficiência operacional das plantas industriais, cuidados com o meio ambiente e com as comunidades com as quais nos relacionamos e ainda à gestão de custos. Sem dúvida, um ano desafiador e rico em aprendizados.”
Quais foram as principais dificuldades encontradas no ano passado?
“Podemos citar algumas dificuldades em detalhes:
– Custos de energia e matérias-primas: a instabilidade geopolítica internacional manteve os preços do gás natural e da eletricidade em patamares elevados, representando uma pressão contínua sobre as margens de lucro;
– Desaceleração econômica global: as várias crises nas negociações comerciais entre os países e as elevadas taxas de juros em muitas economias para conter a inflação resultaram em contração de crédito e, consequentemente, em desaceleração nos setores da construção civil e automotivo, que são os principais consumidores de vidro plano. Como exemplo, podemos citar a China, cuja desaceleração gerou e continua a gerar excedentes de exportação de vidros e produtos compostos com vidros que foram direcionados, dentre outros, ao mercado brasileiro, com impacto significativo em nossos negócios;
– Escassez de mão de obra qualificada: o complexo quebra-cabeças que envolve educação deficiente, baixa flexibilidade da indústria formal em relação às condições de trabalho, salários pouco atrativos e/ou insuficientes para sustentar a qualidade de vida esperada pelos trabalhadores, a concorrência da economia informal e por aplicativos, as mudanças nas expectativas dos trabalhadores e ainda a crescente digitalização dos serviços criaram um gap de trabalhadores nos mais variados segmentos;
– Carga e complexidade tributária: a complexidade do sistema tributário, mesmo com os avanços da reforma em sua fase de transição inicial, é um desafio que as empresas enfrentaram e continuarão a enfrentar. A elevada carga de impostos onera a produção e reduz a competitividade das empresas brasileiras, tanto no mercado interno como nas exportações;
– Câmbio e juros: a flutuação do dólar impactou diretamente os custos de matérias-primas e insumos importados, como a barrilha. A taxa de juros (Selic) permanece elevada em um patamar que encarece o crédito e desestimula investimentos, além de impactar negativamente o financiamento imobiliário e automotivo;
– Infraestrutura e logística: a dependência do modal rodoviário, sujeito a flutuações nos preços dos combustíveis e a condições precárias das estradas, representa uma desvantagem competitiva significativa e um gargalo crônico que reduz o crescimento do País. As oscilações nos fretes internacionais influenciaram diretamente a competitividade da indústria nacional frente aos produtos importados.”
E quais as possíveis soluções para esses problemas?
“– Inovação em produtos de valor agregado: para combater a pressão sobre as margens, o foco deve gradualmente se deslocar das commodities para produtos de alto valor agregado, como vidros de controle solar, laminados, para isolamento acústico e soluções para veículos elétricos (vidros mais leves e com displays integrados). Esse movimento ajudará a compensar a queda em mercados mais sensíveis a preço;
– Economia circular na prática: aumentar o percentual de caco de vidro reciclado no processo produtivo, tornando-se uma solução com duplo benefício, econômico e ambiental;
– Capacitação e requalificação: empresas líderes investem em programas de treinamento para capacitar sua força de trabalho para a nova realidade digital e sustentável, além de criar parcerias com universidades e centros técnicos para formar a próxima geração de profissionais.”
Quais são as expectativas para 2026?
“O ponto de partida para 2026 é um cenário mais equilibrado se comparado com o início de 2025. As expectativas são de otimismo cauteloso, fortemente atreladas ao desempenho da economia e a fatores internos. O principal vetor positivo será o início do processo de queda dos juros ao longo do ano, ainda que gradual, considerado relevante para a retomada das obras e reformas das famílias, assim como ocorreu durante os anos iniciais da pandemia. Será um ano chave também para observar os primeiros impactos reais da Reforma Tributária considerando a transição para o novo sistema de IVA (IBS e CBS). A expectativa é de simplificação a longo prazo, mas o período de adaptação exigirá atenção e pode gerar incertezas. Uma eventual queda mais acentuada da taxa Selic pode reaquecer o mercado imobiliário, com programas de habitação popular, como o Minha Casa, Minha Vida, continuando a ser um importante motor de demanda para vidros planos básicos.”
Quais as perspectivas para os principais mercados consumidores de vidro em 2026?
“– Construção civil: apresenta expectativas mais favoráveis do que outros setores. Um dos pilares do crescimento deve ser a infraestrutura, devido ao impulso eleitoral. É um mercado que deve continuar segmentado – o de alto padrão buscará produtos alinhados às tendências globais, como grandes vãos que ofereçam isolamento térmico e acústico, segurança e estética. A tendência por vidros mais transparentes continuará. Já o segmento econômico, principal volume do mercado, permanecerá extremamente sensível ao preço e às condições de financiamento;
– Automotivo: a transição para veículos elétricos no Brasil é mais lenta. O mercado de vidros para carros a combustão e flex continuará sendo o principal da cadeia. Já o mercado de reposição (peças para carros usados) tem uma importância enorme e é uma fonte de receita resiliente;
– Linha branca e móveis: são muito relevantes no Brasil e seu desempenho está diretamente ligado à confiança e ao poder de compra do consumidor.”
Qual recado vocês deixam para o setor?
“Resiliência e criatividade. Navegar no ambiente de negócios do Brasil exige mais do que eficiência operacional, exige muita capacidade de adaptação. Quem investir em soluções locais, entender as nuances regionais do nosso imenso mercado e souber comunicar seu valor em um cenário complexo, construirá as bases para um crescimento sólido e sustentável nos próximos anos.”
Confira a reportagem completa da revista O Vidroplano sobre perspectivas das empresas para este ano.








